Nosso Adeus a Augusto Boal

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Augusto Boal, teatrólogo, diretor e dramaturgo morreu por volta das 2h40 do dia 2 de maio de 2009, aos 78 anos, no Centro de Tratamento Intensivo do Hospital Samaritano, em Botafogo, na Zona Sul do Rio, por insuficiência respiratória. Boal sofria de leucemia e estava internado desde o dia 28 de abril.

  Boal foi um grande homem do teatro e da arte brasileira, defensor de uma arte engajada, em seu livro “Teatro do Orpimido: e outras poéticas políticas” ele diz: “Tenho sincero respeito por aqueles artistas que dedicam suas vidas exclusivamente à arte – é seu direito ou condição! -, mas prefiro aqueles que dedicam sua arte à vida.” 

  Eu tenho uma grande admiração por este grande mestre, já tendo estudado um pouco de sua obra, e posso dizer com toda certeza que Augusto Boal dedicou sua arte à vida!

  Boal, que foi filho de um padeiro português e de uma dona de casa, acabou revolucionando o teatro mundial. Seu teatro do oprimido tem atuação em mais de 50 paises, levando uma arte onde a população pode ver no palco as opressões cotidianas a que são expostas, mas o grande mérito deste teatro é a presença do spect-actor, que nada mais é do que levar o próprio espectador a cena para propor possíveis soluções para o problema apresentado, este técnica é chamada de teatro fórum e a partir dela surgem várias outras como o teatro legislativo, neste tipo de espetáculo, o teatro fórum é usado para criar leis que beneficiem a população e foi testada pelo proprio Boal quando este foi vereador na cidade do Rio de Janeiro, tendo encaminhado à Câmara de Vereadores 33 projetos de lei, dos quais 14 tornam-se leis municipais, entre 1993 a 1996, todos os projetos foram formulados com uso do teatro legislativo.

  Além do teatro do oprimido Agusto Boal também fez parte do Teatro de Arena, onde ele conduziu um seminário de dramaturgia, ensinando técnicas que ele aprendeu com John Gassner, entre os alunos estavam artistas fundamentais para a criação de uma dramaturgia brasileira.

  A minha experiência com o Teatro do Oprimido além do estudo de livros do mestre, também passa por uma curta experiência assistindo algumas aulas do GTO (Grupo do Teatro do Oprimido) em Santo André onde o GTO tem apoio e financiamento da prefeitura, foi uma experiência muito enriquecedora apesar de bem curta.

  Além disso pude assistir a palestra que Boal fez ano passado no fórum da Cooperativa Paulista de Teatro, ele fez uma rápida explicação do Teatro do Oprimido (Procure pela Árvore do Teatro do Oprimido) e contou de sua experiência artística no mundo, lemro-me de quando ele contou sobre sua passagem na câmara de vereadores no Rio de Janeiro, ele disse que foi o período em que ele e seu grupo, tiveram finalmente alguma estabilidade financeira trabalhando com arte.

  Boal está concorrendo ao prémio nobel da paz pelo seu trabalho mundial com o Teatro do Oprimido, e também foi nomeado Embaixador mundial do Teatro em março deste ano pela Unesco.

  Bom encerro deixando com vocês o discurso que Boal fez ao ser nomeado embaixador mundial do teatro, e confesso que estou um pouco emocionado fazendo este artigo, com vocês as palavras do mestre:

“Todas as sociedades humanas são espetaculares no seu cotidiano, e produzem espetáculos em momentos especiais. São espetaculares como forma de organização social, e produzem espetáculos como este que vocês vieram ver.

Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de ideias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro!

Não só casamentos e funerais são espetáculos, mas também os rituais cotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática –tudo é teatro.

Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espetáculos da vida diária onde os atores são os próprios espectadores, o palco é a plateia e a plateia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida cotidiana.

Em setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo seguro apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da Bolsa –nós fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias.

Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espetáculo, eu dizia aos meus atores: – ‘Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida’.

Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida.

Assistam ao espetáculo que vai começar; depois, em suas casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento –é forma de vida!

Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!”

Este artigo foi feito com muito carinho por Paulo Carvalho.

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2 Respostas to “Nosso Adeus a Augusto Boal”

  1. gilberto Says:

    Não sou um conhecedor profundo da obra de Boal, mas conhece-lo por meio de algumas reportagens e entrevistas (que inclusive me motivaram a ler seu livro “Hamlet e o filho do padeiro”) foi o suficiente para admirá-lo e, agora, lamentar sua morte. Boal confirmou minha crença no teatro brasileiro como uma das grandes expressões nacionais (e saibam que sou da área de artes plásticas!). Além disso, sua atuação política o fez um grande pensador e cidadão, exemplo para muitos de nós, que com seu trabalho participou aqui e ali dos rumos de nossa história. O que mais me tocou neste sujeito foi a humildade de um sábio-ingênuo, que falava sobre coisas que nos custam muito a aprender, que ele sabia por ter pago seu duro preço sem contudo perder a ternura. Parabéns ao blog por lhe prestar esta carinhosa homenagem. Carinho que este sábio nos ensinou e por isso lhe é merecido.

  2. Hamlet e o filho do padeiro « Projeto 8 Blog Says:

    […]   Boal foi o artista brasileiro com maior expressão internacional no campo teatral, seu teatro do oprimido esta em mais de 50 países como comentei em outra ocasião. […]

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