O Último Morto de Zeca Picadinho

  Zeca Picadinho era homem ruim, desses que já mataram muito, pela sua faca já passaram mais de 50 lombos, e ainda outros tantos, que por meio de tiro, foram prosear com nosso senhor.

  Naquela tarde de domingo, que deveria ter sido de festa, se num fosse a chegada de Zeca, ele já tinha matado toda uma família, com ajuda de mais três comparsas. Trabalho encomendado.

  Mas quando ele tinha acabado de matar a matriarca e se deu por satisfeito é que o menino apareceu.

  Não devia ter nem oito anos, a verdade é que parecia ter bem uns seis, saiu de debaixo da cama, enfurecido e foi encarar o lazarento. Deu-lhe com a cabeça no saco do diabo, que na hora soltou um palavrão agoniado, desses que num se fala em presença de moça.

  Zeca na mesma hora deu um tranco forte e o menino foi ao chão, os olhos carregados de sangue, os comparsas rindo. Sacou o revólver e mirou bem na testa do menino, que num se intimidou e encarou a fera.

  Olhando bem nos olhos do garoto, o bandido vacilou, recolheu a arma e disse: – Esse fica pra melhorar um pouco minha situação quando tiver abraçando o tinhoso.

  Dito isso virou as costas e saiu andando, os outros bandidos sem entender nada foram atrás.

  – Não vai dar problema com o patrão larga o menino?

  – Nada, se ele reclamar eu lhe rasgo logo a barriga que é pra aprender a ter respeito.

  E foram assim, os três, saindo pelo mato.

  Quando já tinha andado uns bons três terço de mundo, o cavalo já dava sinal de cansaço, ele disse pros outros homens: – Agora vai cada um pra um lado, e amanhã, aqui na mesma hora vocês aparecem pra nós fazer o acordo.

  Zeca então, sozinho foi até um fiozinho de água, que passava por ali, pra mó de dar água ao cavalo, aproveitou e lavou o rosto, lá mesmo, quando tava pra por as mãos no frio da água, ouviu um riso.

  Agarrou o facão e olhou pros lados, não viu nada. De repente o riso voltou e dessa vez ele continuo, até que essa voz começou a falar.

  – Adianta lavar nada mizinfim, que sangue de inocente num sai com água corrente. – E tornô a rir.

  Zeca que sempre foi sujeito de num ter medo de nada, nem assombração, não tardo a dizer: – Aparece coisa ruim, que ainda não inventaram bucho que minha faca não corte.

  Nessa hora, meio que por sabe-se lá que mistério, um velho preto surgiu do nada, ali na frente do danado do Zeca, parecia que tinha surgido da fumaça, da mesma espécie de fumaça que saia do cachimbo do velho.

  Aí, num tinha coragem de homem nenhum que agüentasse as pernas, e quando Zeca se deu por gente, foi de bunda pro chão.

  O velho só ria, e encarava o malvado com um olhar de gelar a espinha.

  Num último esforço de valentia, o Zeca se levantou e disse olhando bem pro velho: – Sai da minha frente, seu velho, que hoje já tô coberto de sangue e não me custa nada aumentar mais um na conta.

  Não se sabe qual a feitiçaria do velho, mas acontece que uma baforada de vento, tão forte como nunca se viu, derrubou o homem no chão, como se fosse feito papel. Os olhos do Zeca ficaram como se fosse duas azeitonas recheadas, e ele entendeu que não podia mais mexer nem o mindinho do pé, por mais força que tenta-se.

  – Seu moleque, acha que pode comigo? Não pode não. Eu é que sei se vosmecê vai sair daqui ou não.

  E o velho voltou a rir e cada risada que saia da boca dele parecia mais sinistra que a anterior, se Zeca Picadinho não fosse homem valente já tinha se borrado todo.

  – Hoje chegou a tua hora diabo, hoje tu vai descobrir qual é a sua cor do avesso.

  O Zeca que como já disse é homem de coragem, viu que não tinha outro jeito e tentou negociá com o espírito.

  – Me dê mais uma chance, seu velho, eu ainda não vivi tudo que devo.

  – Não viveu? Se forem contar todos os anos que tirou dos outros, já dava pra umas boas três vidas inteiras, de sujeito que morre com a cabeleira branca e a coluna entortada.

  – Mas eu ainda posso me endireitar, me dê mais uma chance.

  – E isso lá se endireita? Fruta bichada não tem jeito não, não tem mais serventia, só serve pra apodrecer as outras. Mas ocê me convenceu, vou te dar uma chance, se ocê me mostra uma só coisa boa que tenha feito. É isso que vai julgar o teu destino.

  – Ará, uma coisa boa? – Mas o problema era que Zeca era ruim mesmo e não conseguia se lembrar de nada, nem uma mísera boa-açãozinha que tivesse feito, se lembrou de menino, que uma vez deu uma fruta pra um moleque pobre que trabalhava pro seu pai, tentou se fiar nesse acontecimento.

  – Não venha me enganar seu peste, você só deu essa fruta porque não gostava, e depois fez o menino de escravo, sempre lembrando pro coitado da sua maldita fruta, e ele tinha que fazer miséria, pra você mentir que era amigo do pobre, e depois rachou a cabeça do infeliz na parede, quando ele não quis te obedecer. Se quiser sair daqui tem que pensar em coisa boa feita sem interesse e malvadeza.

  A situação tava mesmo complicada pro Zeca, que já não conseguia se lembrar de nada de bom que houvesse feito, ainda mais sem interesse malvado por traz. Tentou então apelar mais uma vez.

  – Mas se não fiz nada de bom, não é culpa minha, que nessa vida só vi desgraça.

  – Desgraça é vida boa pros peão daqui, se eles não viram peste que nem você, porque isso deveria valer alguma coisa nessa conta?

  – Ora, porque eu vi minha mãe morrer na minha frente, por conta de um traste do diabo qualquer, por que você não foi atrás daquele? Eu mesmo tive que sangrar aquele desgraçado com a minha faca.

  – Mas além de se vingar do traste que matou sua mãe, você também se vingou matando a mãe de um monte criança, pobre, inocente.

  – Mas espere, eu lembrei de uma coisa boa que vai servi pra minha conta.

  – Diga.

  – Eu poupei da morte um molecote, hoje mesmo.

  – E essa é a melhor boa-ação que vosmecê tem pra apresentar?

  – É, é essa.

  – Então que você seja julgada por ela.

  Então da mesma forma que surgiu, o velho preto desapareceu no ar, ficando só uma fumaça que se espalhou por todo canto. Então o Zeca viu um corpo se aproximando, conforme vinha surgindo ele percebeu que o sujeito tinha exatamente a sua altura, e então apareceu, um jovem, devia ter uns dezenove anos. O Zeca tentou sacar o revólver e atirar no rapaz, mas a arma se esgoelou e não cuspiu a bala. Já que não tinha jeito com a pistola, o negócio era mesmo no facão.

  O sujeito vendo o Zeca, já sacou também a sua faca e antes de se atracar com ele olho bem nos olhos e disse:

  – É você seu diabo, é você que eu tenho procurado todos esses anos, foi você que matou minha mãe e me deixou lá como se fosse um monte de bosta.

  – Eu não sei quem é você, mas se tivesse visto, tinha morrido como ela, só um covarde pra se esconder e deixar a mãe morrer.

  – Cala a boca seu chifrudo, eu não me escondi, te acertei foi uma cabeçada nas bolas, você é que não foi homem de matar uma criança.

  Foi só então que o Zeca percebeu, que o rapaz que tava ali era justamente o menino que ele tinha poupado, crescido. Como era possível que tal feito se fizesse ele não sabia, mas que era aquele o moleque, era.

  Não teve mais papo, os dois se atracaram e a luta tava bem disputada, até que Zeca num golpe de sorte derrubou o jovem no chão.

  Só que quando ele levantou o braço pra dar o golpe final, é que ele cruzou os olhos com o menino, e lembrou bem do exato instante, em que ele mesmo tinha matado o desgraçado que havia matado a sua mãe, e isso fez com que o Zeca endurece-se que nem tronco de goiabeira, travado, sem ter a noção, de que o tempo passava e que o menino reagia.

  Quando deu por si o rapaz tinha fincado a sua faca no bucho do Zeca, que só fez foi olhar o menino com cara de espantado, enquanto as vistas iam escurecendo, ainda teve força pra agarrar o garoto pelo braço e balbuciar qualquer coisa, que não se entendeu.

  O menino então respirava ofegante, e quando ele percebeu que tinha acabado e que o feito já tinha se concluído, ele olhou em volta como se não soubesse o que fazer, agora que seu propósito de vida tinha se realizado.

  Então o rapaz despiu o Zeca, trocou de roupa com o defunto, cavou um cova rasa e jogou o corpo morto do antigo bandido dentro, com a faca ainda no lombo, que é pra garantir que o feito não pudesse ser desfeito, apanhou as armas do Zeca, e só então viu o cavalo do bandido que apareceu naquela hora, montou no bicho e seguiu viagem, pra onde não se sabe, mas a verdade é que o nome Zeca Picadinho ainda ficou sendo temido por toda a região.

  Este conto foi feito por Paulo Carvalho.

Anúncios

5 Respostas to “O Último Morto de Zeca Picadinho”

  1. Fred Says:

    Muito legal o conto Paulo, mas cara tem muito erro.. Faz revisão antes postar.. Se quiser até eu posso fazer..Abraço

    • projeto8 Says:

      Onde tem erro? Se for coisas como usar o Num ao invés de Não é opção estética e não erro.

  2. kelly Says:

    Mistico, simples e encantador à Guimarães Rosa. Ainda existem muitos Zeca Picadinhos, não só em regiões inóspitas do Brasil, mas em áreas urbanas também, cada qual ao seu modo.

  3. Fabiana Says:

    Olha o Zeca Picadinho por aqui também!…rs…

  4. pablo77 Says:

    POR ACASO ELE É DE BARBACENA ?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: