O Caso do relógio

  Dizem que assim se passou lá no sul de Minas.

  Osório era um sujeito sem viço, passava às tardes caçando mosca com os olhos, às vezes tinha uma grande idéia, mas logo era vencida pelo desafio da locomoção.

  Tanto fez, nada fazer, que acabou ganhando a alcunha de preguiçoso, coisa que até incomodava Osório, mas acabou deixando por assim, já que o protesto requeria muita energia.

  Um dia, no entanto, uma velha conhecida de Osório, que tinha ido até a capital em busca de estudo, voltou lá pras bandas da terra sem futuro, que era a morada do capiau.

  E mesmo sem querer se mexer, o Osório começou com tamanho movimento ao ver a Verinha, que teria se cansado menos se arasse um alqueire de terra. Foi uma espécie de movimento que começou de dentro pra fora, como se um bicho tivesse preso dentro do peito e quisesse abrir uma saída à força. Tanto tremelique fazia com que tudo se movesse, nenhum controle, as pernas balançavam, mas não tinham firmeza, os lábios se mexiam, mas não se entendia as palavras.

   A coisa foi tão evidente que todo mundo entendeu, menos o Osório, foi tão divertido que todo mundo achou graça, menos o pai da Verinha, que não queria saber de vagabundo interessado em sua filha, ainda mais agora que ela era moça educada na cidade.

  Mais tarde, naquele dia, é que Osório entendeu o que se passara, Verinha não era mais a menina de canelas finas de sua meninice. Verinha virou mulher. E, a essa hora, já tinha passado da hora de Osório virar homem, seus amigos todos já tinham conhecido as maravilhas de um belo par de coxas, Osório só pensava que isso dava muito trabalho, mas as coxas da Verinha, ah! Compensavam o trabalho.

  Nos dias seguintes, Osório se mexeu, foi ganhando coragem, foi até o centro da pequena cidade ver a moça trabalhar. O pai da Verinha era dono da venda, o que ocasionou uma boa vontade nunca antes demonstrada pela criatura, era só alguém precisar de alguma coisa que o Osório logo se prontificava a ir buscar na venda.

  Quem não estava satisfeito em nada com essa história era o pai da bem-querida, tanto que era só o Osório pisar na venda, que logo vinha o homem pedir para que ela fizesse alguma coisa lá dentro no estoque, mas o que realmente provocou o Osório, e fez este caso se tornar interessante, foi a própria Verinha que um dia, num acesso de sinceridade e grosseria, falou bem pro Osório tomar tento, que ela não queria saber de matuto preguiçoso.

  É claro que o bichinho ficou arrasado, mas isso pouco durou, pois que o Osório teve uma luz, Ele haveria de por força própria, conseguir um relógio para a torre da igreja.

  Fez questão de anunciar para toda a cidade, que ouviu tudo num misto de desconfiança e admiração. Igreja boa, que se preste, tem que ter relógio na torre. Por fim acabou ganhando o apoio de toda a cidade, Osório iria encontrar quem vendesse, a forma de trazer, e o modelo mais bonito, só precisaria do apoio financeiro dos concidadãos para poder comprar o dispositivo.

  A isso o povo não gostou muito, mas acabou que aos poucos as pessoas começaram a contribuir para a campanha do relógio, mesmo o pai da Verinha, cuja venda ficava de frente pra igreja e seria grande beneficiado do medidor de tempo. Só quem não se empolgou com a história foi a própria Verinha, que não via muita coisa em relógio, ademais relógio ela já tinha no pulso. Ô coisa de gente atrasada se entusiasmar com um relógio!

  Osório, que a princípio esmoreceu, por conta da amada, resolveu continuar o projeto. Gostou do novo tratamento que todos lhe davam, e se Verinha não se impressionou com o espírito empreendedor de Osório, o mesmo não se pode dizer das outras moças da cidade.

  Acontece porém, que o tempo foi passando, e nada de relógio, as pessoas contribuindo, o Osório sempre falando que ainda não deu o dinheiro, depois de dois anos ninguém acreditava mais, e a pressão popular veio com tudo, sem perder tempo, o Osório anunciou que tinha comprado o relógio e no fim de semana ele seria inaugurado, que ele não precisaria de ajuda, pois ele sozinho iria instalar o relógio.

  Nova onda de admiração, e a desconfiança que havia se instalado pelo atraso do relógio, tinha se tornado no mais belo entusiasmo. Houve muitos que disseram que nunca duvidaram de Osório, mesmo quando este era tido como só um vagabundo.

  Chegado o grande dia, a torre da igreja estava coberta com um pano branco, discurso do prefeito, música da banda, festa de todos. O Osório só dizia que ele não tinha feito mais que a obrigação.

  Hora de desfraldar o relógio, ansiedade geral, retira-se o pano. O que diabos é aquilo na torre da igreja?

  As pessoas espremiam os olhos pra tentar enxergar aquele pontinho no meio da torre. Aquele era o relógio?

  Pois que era, o Osório tinha comprado um daqueles despertadores de dar corda. “Vocês ainda nem viram a barulheira que ele faz quando toca a sineta”. Barulheira quem fez foi o povo, foi um tal de pega pra lá, pega pra cá que o Osório teve que sair em desabalada carreira, com o povo todo atrás, de repente, ele vê na frente alguém o chamando, era a Verinha, que o estava chamando para se esconder da fúria do povo.

  “Mas você deu mesmo uma lição nesses caipiras”, disse a Verinha rindo pra um Osório abobado.

  “Eu não sei de nada disso não”, respondeu meio sem entender o que a Verinha insinuava.

  “A é? Então o que você fez com o dinheiro, que recebeu do povo esse tempo todo?”

  “Você promete guardar segredo? Eu te comprei um presente”, então o Osório mostrou um anel de ouro com uma pedra de diamante encravada, disse que era dela por nada, mas que ele adoraria se ela o aceitasse como sendo de noivado.

  Verinha sabendo que de outra forma nunca teria um anel daqueles, aceitou o convite. O difícil foi fugir da cidade por uns tempos até que a multidão se acalmasse.

  Este conto foi feito por Paulo Carvalho.

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13 Respostas to “O Caso do relógio”

  1. Maurício Carvalho Says:

    Sensacional. Uma estória dentro da História. Mas que em certa cidade do interior nos anos 60 alguém comprou um despertador para a torre da igreja, ah! Isso comprou !!!

  2. Ismael Says:

    Gostei desse conto :D

  3. Marcio Eloy Says:

    depois de dois anos de espera, deve ter valido a pena!!

  4. Kelly Says:

    Um outro ponto de vista sobre o amor…simples, regionalista e inusitado dentro do seu “proibido”.

  5. Victor Amatucci Says:

    Muito boa a história e o jeito que vc incorporou a linguagem nela muito legal mesmo…

  6. Fabiana Says:

    Os toques de humor estão melhores a cada vez. Parabéns!

  7. Claudia Ka Says:

    :D
    Adorei, vou passando, posso ?
    Parabéns.

  8. Claudia Ka Says:

    Não tenho cadastro no SBPC da amizade com você ainda.
    ;-)

  9. Claudia Ka Says:

    Eu disse ‘passando’ não de passar adiante o que você escreve, mas de ir passando por aqui.
    ;-)

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