Vício de Bastião

  Bastião gostava da Negra Jussara, não como os outros homens do povoado que se esbaldavam pelo corpo da mulata, quando visitavam a rua das flores. Bastião se apaixonara.

  Ele nem se preocupou com o espanto do povo que lhe dizia que ela era mulher da rua e não se deve levar este tipo de mulher pra mesma casa onde se beija a mão da mãe.

  Bastião não ouvia nada disso e chegou quase a matar um quando este na birosca fazia troça de Bastião e disse que ele amava uma marafona de beiço largo.

  Um dia bastião se arrumou, vestiu um terno de linho branco que tinha conseguido de um mascate, engraxou os sapatos, fez a barba, banhou-se, comprou um maço de rosas e um anel prateado, e foi ter com Jussara.

  A Negra, que não chegava a dar confiança aos comentários das gentes sobre o amor de Bastião, não pode conter o riso quando viu seu pretendente engomado em um terno que mal lhe cabia, quando se conteve viu que o homem, vermelho, tentava balbuciar-lhe algumas palavras de amor, lhe estendeu o buque, mostrou o anel e lhe propôs casamento, nesta hora a expressão de Jussara mudara, seu rosto se endureceu e por um instante ficou a encarar bastião, que sentia o coração lhe espremer a respiração – “Saia e não volte mais aqui”. Dizendo isso ela se retirou, deixando Bastião com um vazio na alma e uma dor no peito, os olhos se encheram d’água a língua secou e assim derrotado, ele foi-se embora.

  Os dias se arrastavam, nas noites não encontrava o sossego do sono, a comida perdera o gosto.

  Um amigo tentou lhe animar dizendo que as mulheres são todas loucas e com o tempo outra cabrocha viria lhe amansar as dores, mas ele não podia ouvir cego que estava com o vício do amor.

  Resolveu parar com o sofrimento e encarar novamente Jussara, ele precisava de uma explicação de um motivo para a rejeição, juntou algum dinheiro e foi até ela como qualquer outro pagou pela atenção dela, que quando ia se despir foi impedida por Bastião, perguntava por que, ela então sem virar-se disse que nunca se casaria com um homem tão fraco e miserável como ele, continuou a despir-se e quando virou encontrou o quarto vazio sem o pobre apaixonado a lhe olhar com suspiros de um adolescente.

  Desta vez Bastião não sofreu, havia decidido provar que se tornaria o homem digno para Jussara, arrumou logo um emprego como peão numa fazenda próxima, e com o tempo descobriu um curso de alfabetização noturno que a professora resolveu dar aos adultos do lugar.

  Bastião era uma potência, logo foi promovido a capataz depois de um tempo passou a freqüentar um curso técnico nas segundas-feiras na cidade, comprou seu primeiro cantinho de terra e a força do seu trabalho e dedicação ia aumentando patrimônio, foi o primeiro da região a trocar o carro de bois por um trator, coisa que foi encarada como uma extravagância já que suas terras não eram tão extensas, mas logo percebeu-se a esperteza da idéia quando Bastião começou a alugar o trator para os pequenos fazendeiros do lugar.

  Durante esse tempo todo Bastião regularmente mandava presentes a Jussara, junto de cartas açucaradas com promessas de amor.

  Mesmo não obtendo resposta Bastião não se intimidava, acreditava que ela não sabia ler e por isso não lhe respondia, ou talvez ainda não o achasse suficientemente digno, de qualquer forma encarava o envio regular de cartas e presentes uma profissão de fé ante esse amor perseverante.

  Um dia achou que estava pronto pra Jussara, vestiu um terno elegante, que havia mandado fazer na capital, um chapéu de couro, montou seu melhor alazão e foi atrás da Negra na esquecida Rua das Flores, encontrou uma Jussara envelhecida pelos anos de diferentes homens e pior, estava com o rosto ferido, quis saber o autor da agressão ela nada falava só pediu que ele a acompanhasse ao quarto, se despiu e mostrou ainda um belo corpo, Bastião não se conteve com a saudade que seu corpo sentia de mulher, terminado o ato ela se vestiu e deu seu preço, Bastião não podia acreditar, talvez ela não o tivesse reconhecido, explicou quem era e o porque de estar ali, ela só repetiu o preço.

  Bastião pagou, e a olhou, não mais com tristeza pela rejeição, mas com pena daquela mulher gasta pela vida, se vestiu, pagou a conta e foi saindo. Passou por um jovem nervoso que parecia não conhecer mulher, lembrou-se de si alguns anos antes e foi-se embora atrás de uma outra ilusão para preencher-lhe os dias.

  Este conto foi feito por Paulo Carvalho.

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3 Respostas to “Vício de Bastião”

  1. Claudia Ka Says:

    *Estupefata*
    Este é o tipo de coisa que a gente lê e que demora alguns dias na cabeça. Sonhos, ilusões, objetivos…. E tudo se mistura para mostrar a este Deus que se diverte conosco o quanto esta vida é mesmo engraçada e imprevisível.
    Meus sinceros parabéns pela sua arte contista.

  2. anônimo Says:

    Está cada vez melhor! Parabens e continue nos presenteandos com seus contos.

  3. cecilia meireles Says:

    (vicio de bastiao) gostei do que li e adoraria ler outros contos seus…parabéns… espero um dia chegar a ler um livro escrito por vc PAULO CARVALHO… boa sorte nesta sua jornada…

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