O Fantasma de Anacleto

  Maria Lúcia era uma mulher geniosa, queria ter o controle de tudo, da posição do vaso na mesinha de canto até os horários de uso da latrina, além disso era uma defensora árdua da fé em Cristo, se achava detentora da palavra de Deus e sempre que lhe convinha usava o velho bordão – “Isso não é de Deus”. Com seus controles laureados com a palavra divina ela se tornava tão inflexível que muitos achavam que seu sobrenome devia ser Teimosia.

  Já Anacleto era um pândego, boêmio e totalmente indomável, chegava a ser irresponsável já que por vezes saia atrás de leite pro menino e só tornava a casa na próxima manhã com uma garrafa de cana lá pela metade, e nada de leite.

  Os dois se conheceram no dia do casório, afinal isso era comum na época, ela que até então tinha um espírito vívido e jovem, foi obrigada a casar às pressas, já que seu pai queria vê-la longe de um querido pretendente que foi, desde sempre, o grande amor de Maria Lúcia.

  Pelo lado de Anacleto, os pais dele acharam por bem que ele se alinhasse numa esposa de família, afinal de todos os quatro irmãos ele era o mais arredio e gostava de passar todo o tempo na fazenda da família, onde ficava longe de censura e podia andar por aí descalço em busca de aventuras rurais.

  Acontece que um dia, quando já estavam a uns bons nove anos de casados e três filhos, um de oito, um de cinco, e um de seis messes, Maria Lúcia tinha arrumado os filhos pra ir à missa penteado um por um, conferido o alinhamento da camisa dos dois meninos, que eram os mais velhos, e agasalhado a neném. Nesse dia ela estava com um peso na consciência, porque na véspera ela tinha brigado com Anacleto e desejado a morte do esposo, ele por sua vez disse que se tinha algum prazer no casamento era o de atormentar Maria Lúcia e que mesmo morto viria atrás dela perturbar-lhe o sono, sabia ele do pavor que ela tinha por fantasmas.

  Anacleto saiu de casa, bravo, trajando um casaco grande e seu velho chapéu de feltro, até a hora em que ela foi à missa com os meninos não sabia do paradeiro do marido.

  Ele só voltaria pra casa quando ela estivesse vazia, sabia que a mulher sempre ia à missa e não teria que ouvir aporrinhação, chegou em casa, confirmou que estava só, retirou o casaco e o chapéu deixando no mancebo da entrada, tomou um banho rápido, colocou outra roupa e saiu de novo à rua.

  Quando Maria Lúcia chegava em casa vindo da missa viu um homem de pé próximo a janela de sua casa, reconheceu as roupas do marido, mas estranhou que ele estivesse em pé de costas no escuro, resolveu chamar-lhe pra que ele abrisse a porta, nada, nenhuma resposta, chamou de novo, nada.

  “Isso não é de Deus, um fantasma!” – E começou a suar frio, se sentiu culpada, ela tinha desejado a morte do marido, é preciso ter cuidado com o que se deseja. “Ninguém entra nessa casa com esse fantasma dentro”, os meninos começaram a chorar com medo do fantasma anunciado pela mãe, deu a neném pro mais velho e disse que com a ajuda de Deus ia resolver a questão.

  Ela tomou coragem, colocou-se em posição de guerra e começou a exorcizar o “fantasma” – “Saia daqui alma penada, que Deus está com nós”, nem assim o fantasma se mexeu, tentou outra evocação – “Que o sangue de Cristo e o manto de Maria nos livre da assombração”, de novo não houve respostas, finalmente num último apelo a nobre beata disse a alma penada – “Mas nem depois de morto você me ouve Anacleto, isso não é coisa de Deus”.

  Como nada surtiu efeito, ela resolveu sentar-se à porta, à espera que o fantasma de Anacleto se cansasse e a deixasse entrar. Acordou na manhã seguinte com uns cutucões no braço, ao abrir os olhos o coração quase lhe sai pela boca “Valha-me Deus que o fantasma quer me pegar”, Anacleto coçou a cabeça e a olhou com estranheza – “Mas que diabos você ta falando mulher?” Ela sem entender nada se levantou e perguntou – “E o fantasma na janela?”, ela olhou e viu novamente o casaco e o chapéu  – “Ainda ta lá, olha, de pé”, Anacleto olhou viu as roupas que deixara no dia anterior e já abrindo a porta e pondo os meninos cansados pra dentro disse – “Deixa de ser louca mulher, agora cê tem medo de casaco?”.

  Quando percebeu o erro que tinha cometido ela só conseguiu dizer – “Isso não é de Deus, quem foi que mudou esse mancebo de lugar?”.

 Esse conto foi feito por Paulo Carvalho.

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4 Respostas to “O Fantasma de Anacleto”

  1. Marilda Carvalho Says:

    Muito bom Paulo! Adorei!!!

  2. kelly christi Says:

    Que bosta, tinha feito um comentario mow legal e o o wordspress q de spress nao tem nada, nao aceitou, deu erro, volto outro dia… q &&&&&&****¨¨%%$##

  3. Claudia Ka Says:

    Este foi um conto matreiro !!
    :D
    (marcando presença)

    @}–\——–

  4. Tânia Says:

    Muito bem construida a narrativa, o suspense lá no alto, e de repente, um tom de humor, adorei ler.

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