Archive for novembro \29\UTC 2009

O Enamorado

29/11/2009

  O Coroné Leotério era homem bravo e importante, destes que o povo se descobre ao menor sinal de presença, e que os mais humildes raramente ousam dirigir palavra.

  Pois que os boatos começaram a se espalhar, quem seria a bela jovem que curioso viu passar pela janela da sala? Se cogitou que fosse uma amante, mas como o Coroné tinha moral ilibada achou-se esta idéia matutagem besta, por consenso geral ficou decretado que ela era uma filha dele à que o povo num tinha dado conhecimento, alguns pensaram abordar pessoa próxima, mas esta não sabia de resposta, posto que o Coroné fazia a moça se manter nos cômodos mais reservados quando de haver visita à casa.

  Acontece que tanta proteção e mistério só fez mais brotar a imaginação das gentes, alguns que anunciavam ter tido a sorte de avistá-la a descreviam como a mais bela moça a ter respirado o ar da vida, lenda corria que até um anjo do senhor ficara apaixonado pela moça e que voou assustado quando alguém o avistou, com tanta verdade e ficção junta como a palha e o fumo, acabou-se por muitos terem se apaixonado, vigílias se faziam a espera de um instante de beleza, mas estes eram concorridos e disfarçados pelo medo do escândalo e da carabina do Coroné.

  O único homem solteiro que se ria de todos era o professor Cadinho homem de estudo que sabia segredos dos bichos e do solo, e ainda se esforçava pra mostra o bê-á-bá pros peão das nossas bandas. Na verdade o professor era viúvo e já não tinha mais tanto ânimo pras aventuras que apertam o peito – “Beleza há de passar, o importante é que as idéias se encontrem” anunciava o sábio homem, que tal como o batista pregava no deserto, já que os ânimos de todos só sonhavam com a bela bem-querida.

  Mas mesmo com tantos suspiros, com tantas vigílias, e tanto sonhares, os solteiros iam se findando, já que a idade avançava e o medo de enfrentar o Coroné não refreava.

  Foi então que quando todos já tinham a bela como um sonho de nostalgia, anunciou o Zé Firmino – “Eu que sobrei solteiro, não tenho do que me valer. Vou enfrenta a fera e trazer pra mim a bela”, O povo não acreditou muito na súbita valentia do Firmino, tão feio e sem brilho que, tirando os amigos mais chegados, poucos se lembravam dele ao longo dos dias, alguns chegaram a rir da inocência apaixonada, mas eis que Firmino foi e tempo depois volta no boteco do Nego Jorge, Alegre feito porco quando chega a lavagem, Dizia que voltara vitorioso porque o Coroné permitira a corte, mas alertava esclarecimento tardio: a filha na verdade era sobrinha do Poderoso.

  Durante as semanas seguintes o povo não se continha, já que com a corte a moça saía de casa, acompanhada do agora enamorado Zé, pra ir às missas de domingo. E os outros homens já casados sentiam inveja do Firmino e raiva de si por não ter tido a audácia do pequeno traste. E olha que todas as fábulas de bonitesa eram pouco, a moça só num era mais linda por falta de capacidade admirativa, muitos casados seguravam o suspiro à força imensa quando do lado da esposa, a cidade nunca tinha sido tão devotada à cristo em anos.

  Então chegou o dia em que Zé Firmino anunciou – “é hoje que eu a enlaço, vô pedi a mão dela pro Coroné”. Tomou mais uma dose da marvada, acertou o devido ao Nego Jorge e foi-se confiante pela rua.

  Na noite do mesmo dia não se reconhecia o Zé, o homem mirrado, que até tinha ganhado um certo ar nobre, se desfaleceu no pior dos miseráveis, bêbado gritava para que todos ouvissem – “Sou um desgraçado, sou o maior desgraçado deste mundo inteirinho”, questionado o porque Zé Firmino deu com a língua, disse que a moça não era mais donzela, que assim que fez o pedido ao Coroné Leotério, esse mandou ele sentar e avisou que não podia esconder dele a verdade, o que foi um rasgo no coração do Zé que se partiu em pedaços de vidro quebrado.

  Então no meio de toda lamentação o velho Professor Cadinho, que também gostava de bebericá das suas, tem um rompante e grita pro Zé se calar que ele num passava de capiau atrasado, e que não ser donzela era coisa pouca pra tamanho despropósito, o Firmino, que por àquelas horas até pagava pra entra em briga, respondeu que se o professor gostava de marafona que fosse ele se casar com a perdida. Cadinho não agüentou tamanha cabeça-duriçe e deu um bofetão pro bêbado dormi de vez, se ajeito em seus panos cor castanho e declarou – “Pois que se é assim que este povo pensa, eu vou lhes dar uma lição”, e sumiu-se na noite.

  Tempos depois soube-se do casamento, dos filhos e que por muito tempo ninguém discordava de que não havia casal mais feliz e afortunado. Quanto ao Zé Firmino, acabou por morrer sem conhecer mulher, alguns dizem que no fim da vida ele só suspirava fundo e repetia pra si – “Sou um desgraçado, sou o maior desgraçado desse mundo inteirinho”.

  Este conto foi feito por Paulo Carvalho.

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Hoje tem Sarau!

26/11/2009

  Povo, hoje tem Sarau do Projeto 8, vamos lá mostrar um pouco de nossos trabalhos e discutir os rumos da arte e do projeto.

Este artigo foi feito por Paulo Carvalho.

A Carcaça

23/11/2009

  Não se sabe de onde ele veio, qual motivo, qual destino deu aquele fim à criatura, mas ela estava lá, estirada na minha frente, os olhos esbugalhados, o bucho magro desenhando costelas no couro, já no primeiro encontro o cheiro, aquele cheiro forte que revirava o estômago e nos faz tampar a boca com trapo de pano.

  No começo eu tive curiosidade, terá sido doença? Pancada? Velhice não devia ser. Terá tido um dono? Alguém que se importasse? Ou era só mais um cão vadio que vive de revirar o lixo dos outros? Daqueles que se vemos por perto logo ameaçamos com pedaço de pau ou pedra.

  Eu não tinha idéia, mas estava lá, a carcaça do bicho, devia fazer pouco tempo que tava lá, talvez um dia, quem sabe horas, só sei que no dia anterior não tava, senão eu teria percebido, mas será que alguém recolhe isso? Dá um fim menos miserável pro coitado? Não sei, segui meu caminho pulando o bicho e seguindo em frente.

  Dia seguinte novo encontro, a coisa ainda tava lá, o cheiro tinha aumentado e algumas moscas apareciam em volta, já não tinha mais nenhuma curiosidade só o nojo mesmo, a vontade de xingar alguém por não se livrar daquilo logo, aquela porcaria que atravancava o caminho.

  A coisa continuou assim durante toda a semana, o bicho apodrecendo, depois de alguns dias já se antevia a tortura pelo olfato, me acostumei a levar um pano em que borrifava água de colônia toda a manhã, a imagem da criatura logo se anunciava como uma ofensa à dignidade do sujeito que trabalha, o mesmo caminho todo o dia, não tinha desvio possível, o negócio era encarar a putrefação com coragem.

  Na segunda semana não podia tomar café, se estivesse com algo no estômago o encontro era mais custoso, agora já se via buracos na pele, a brancura dos ossos se anunciava e mostrava que a maldita da morte não para de trabalhar, pular o bicho era cada vez mais difícil, porque ele ficava no meio do caminho seco, do lado o mato tava sempre úmido e sujava de barro o sapato da gente, os mosquitos eram tantos que alem da boca tínhamos que fechar os olhos.

  Na terceira semana a vida era a carcaça, saber que tinha que encarar aquilo, diariamente, não deixava os pensamentos no lugar, logo fui me tornando um bruto, sem paciência, tinha de acabar com aquilo de uma vez, ou sumia com aquela coisa podre, ou me apodrecia a vida.

  No fim de semana consegui um saco preto e fui até o cachorro, o cheiro da morte era insuportável, peguei o saco, enfiei a mão por um lado e diante do meu próprio asco peguei a cabeça do bicho, a coisa abriu no meio, e se esparramou uma mistura de vermes e vísceras, não contive a ânsia e acabei misturando vômito àquela nojeira, depois agarrei a perna de trás e coloquei dentro do saco, a parte grossa e dura da carcaça tava no saco, no chão ficou um resto de bicho meio líquido meio pastoso, vermelho e branco por causa dos vermes e do vômito. Fechei o saco e andei uns três quilômetros com o embrulho indigesto e fedorento, soltei ele numa rua onde já estavam alguns sacos empilhados a espera de recolhimento.

  Em casa joguei a roupa fora e fui me lavar, a imagem da carcaça aberta não me saia da cabeça, o cheiro não me saia do corpo, me esfreguei até ficar vermelho, abri uma ferida no braço, dela saiu sangue, por um minuto me vi naquela carcaça, eu estaria podre?

  Nos dias seguintes o resto pastoso do bicho foi sumindo, logo virou uma mancha, logo não era nada, mas todo dia quando passava pelo lugar ainda sentia o cheiro, ainda tinha que fazer o mesmo caminho, todo dia, a vida toda.

  Este conto foi feito por Paulo Carvalho.

Vídeo Sambossa

19/11/2009

  Quem não foi no show do Sambossa no Teatro da Vila perdeu, mas como eu sou bonzinho posto este vídeo pra vocês conferirem um pouquinho da boa música brasileira.

  Este artigo foi feito por Paulo Carvalho.

Ladrões de Bicicleta

17/11/2009

 

 Ladrões de bicicleta é um clássico do Neo-Realismo italiano com direção de Vittorio de Sica.

  O Neo-Realismo foi uma escola de cinema que surgiu após a segunda grande guerra, sendo que o tema da miséria e dos limites do homem estão presentes, outro ponto é a substituição de atores profissionais por amadores que vivem uma realidade próxima aos personagens e com isso conseguem uma interpretação muito autêntica.

  Este filme conta a história de Ricci, um desempregado que consegue um emprego de colar cartazes de cartazes, porém para o trabalho é exigido que se tenha uma bicicleta, já que será necessário andar por toda a cidade colando a cara de estrelas do cinema americano, para conseguir a bicicleta a esposa de Ricci, Maria, decide penhorar os lençóis da família, tudo corre bem até que no primeiro dia de trabalho a bicicleta é roubada, a partir daí a uma busca desesperado do herói atrás do seu instrumento de trabalho.

  O filme consegue contar essa história de maneira bem poética e é impossível não nos sensibilizarmos com o drama de Ricci, aliás Ricci é só mais um de um grande painel social que é muito bem desenhado ao longo do filme, a sensação de insatisfação social está presente e vemos aqui e ali comícios de trabalhadores, assistência social e outros indicadores sociais da miséria, como o mercado negro de bicicletas.

  Após mostrar a situação dos personagens, a película mostra um sentimento positivo, tudo é cheio de esperança em um mundo melhor, e a trilha sonora ajuda em muito pontuando o filme com toda a matiz emocional que o filme percorre.

  Outro destaque é o pequeno Bruno, de no máximo dez anos, ele é o filho mais velho do casal, o outro é um bebê, e está com o pai durante toda a busca.

  A busca pela bicicleta é a busca pela dignidade e nesta procura o homem chega até as últimas conseqüências e o sentimento de impotência e derrota é difícil de degustar.

  Enfim fica essa dica de um belo filme.

  Este artigo foi feito por Paulo Carvalho.

Sarau

16/11/2009

  Convidamos todos os artistas a participarem do “Sarau do Projeto 8”, diferente dos demais eventos este será focado mais na troca entre os artistas, vamos lá pra mostrarmos nossos trabalhos, discutirmos problemas correlatos e até tomar uma cervejinha.

  O Sarau acontece dia 26/11/09 – quinta-feira das 19:00hs. às 24:00hs no “Bar do Mam” que fica dentro do Copan aqui em Sampa.

  Quem ainda não conheçe o “Projeto 8” dá uma olhada no site: www.projeto8.wordpress.com

  Abraços e espero vocês lá.

  Este artigo foi feito por Paulo Carvalho.

Hoje tem show do Sambossa

12/11/2009

  Hoje dia 12 de novembro o sambossa vai tocar às 21h00  no Teatro da Vila, e o ingresso é pague quanto quiser.

  Compareçam que depois a gente toma uma cerveja.

  O Teatro da Vila fica na rua Jericó, 256 – Vila Madalena.

Lembrando que o você pode conhecer o trabalho do sambossa no site: www.sambossa.mus.br

  Este artigo foi feito por Paulo Carvalho.

Sinfonia

09/11/2009

  Você me ligou nesta tarde, eu estava na rua, queria comprar sei-lá-o-que no centro da cidade, já fazia seis messes que tudo tinha acabado.

  Eu lembro que quando te conheci eu estava confuso, estava em uma indecisão profissional, queria mudar de carreira, não agüentava o bafo do ar condicionado daquele escritório, aquele assopro gelado que o aparelho vomitava por trás de um filtro nunca trocado, isso misturado ao fedor da cidade era a minha terapia diária de estricnina.

  “Eu quero ser músico”, foi uma das primeiras coisas que te disse, você se esforçava pra elogiar um emprego que ninguém deseja, e eu enfim revelei minha tímida aspiração.

  Tínhamos nos encontrado na exposição de um artista húngaro, uma amiga me convenceu a ir. Não entendi nada, achei tudo muito experimental e vazio, a amiga estava tendo delírios estéticos, cansado daquilo eu disfarcei uma saída ao toalete.

  Te encontrei na rua, queria fumar um cigarro, achei o meu maço vazio, você percebendo minha desilusão ofereceu um dos seus, “Obrigado”. “Que achou da exposição?” – Foi a primeira vez que ouvi sua voz. “Uma merda!” – Disse num desabafo, você riu e fez questão de discordar de mim, gostava do artista, e me mostrou a beleza.

  Depois de dois anos fomos morar juntos, nos alegrávamos em decorar o apartamento, sempre que víamos um móvel, enfeite, bibelô, recorríamos ao outro em nossos planos cenográficos, em casa, nossos cheiros se misturavam envoltos no movimento frenético da dança ancestral que nos guiava ao gozo, numa noite assim, lhe mostrei minha primeira composição.

  A primeira dor veio depois de seis messes, um desentendimento bobo que revelava meus medos, larguei o antigo emprego e me dediquei totalmente a música, sem dinheiro eu queria um culpado e deixei meu egoísmo maldizer seus sapatos novos.

  A segunda dor foi o inicio do fim, uma colega, musicista talentosa, gostou de minhas composições, gostou de minha arte, gostou de mim, e eu traí. Traí a mim, traí a arte, traí a ti, ela não sabia que a beleza daquelas notas tinham sido roubadas de ti, e eu não sabia mais o que eu era.

  A última dor foi meu maior erro, não sabia lidar com as falhas anteriores, não podia abandonar a culpa, me entreguei ao trabalho, as partituras, as horas de solidão e nunca a você, era inevitável que então alguém o fizesse, eu chorei e você partiu.

  Hoje é uma noite importante, uma grande apresentação, você não estará ao meu lado, estará dentro da música, em cada compasso, na delicada pulsação, nos acordes trepidantes. Hoje você me ligou, desejou boa sorte, eu agradeci, já não sinto a sua falta é verdade! Já chegou ao fim, a música acabou, o público já se foi, a cortina se fechou.

  Mas ainda guardo em minha carteira o seu retrato.

  Este conto foi feito por Paulo Carvalho.

Novos Autores – Taciane Sandri

03/11/2009

  A algum tempo venho recolhendo textos pra iniciar uma novidade no blog e finalmente eu começo a seção “Novos Autores”.

  Quem abre a iniciativa é a gauchinha Taciane Sandri Anhaia, estudante de filosofia que nos apresenta um poema:

QUANDO PADECE A MENTE…

Por Taciane Sandri Anhaia.

 

Na inquietude dos estrondos

E devassos massacres

Um trevo lhe serviu de aura

E o fugaz de seus tremores,

O serviu de vagas…

 

Vagas, á caminhar como

preenchidas  em sua  mente.

Que não lhes diziam nada.

Nem passado, nem futuro

nem presente.

Acumulou-se tanto

Que o tanto, exprimido,

virou nada.

 

Quando o trevo carregava…

Sua face era repleta de

Expressões.

Tal objeto, causaria a causa…

De preencher-se de ilusões.

 

Quando perdeste, o amuleto.

Outro lado foi revelado.

Não morreste em meio

As guerras.

Mas na branquidão

de um espaço…

A sua mente!

  Bom é isso, inicialmente eu vou postar um novo autor por mês, conforme eu for recebendo mais material eu posso aumentar a frequência.

  Este artigo foi feito por Paulo Carvalho.