Sinfonia

  Você me ligou nesta tarde, eu estava na rua, queria comprar sei-lá-o-que no centro da cidade, já fazia seis messes que tudo tinha acabado.

  Eu lembro que quando te conheci eu estava confuso, estava em uma indecisão profissional, queria mudar de carreira, não agüentava o bafo do ar condicionado daquele escritório, aquele assopro gelado que o aparelho vomitava por trás de um filtro nunca trocado, isso misturado ao fedor da cidade era a minha terapia diária de estricnina.

  “Eu quero ser músico”, foi uma das primeiras coisas que te disse, você se esforçava pra elogiar um emprego que ninguém deseja, e eu enfim revelei minha tímida aspiração.

  Tínhamos nos encontrado na exposição de um artista húngaro, uma amiga me convenceu a ir. Não entendi nada, achei tudo muito experimental e vazio, a amiga estava tendo delírios estéticos, cansado daquilo eu disfarcei uma saída ao toalete.

  Te encontrei na rua, queria fumar um cigarro, achei o meu maço vazio, você percebendo minha desilusão ofereceu um dos seus, “Obrigado”. “Que achou da exposição?” – Foi a primeira vez que ouvi sua voz. “Uma merda!” – Disse num desabafo, você riu e fez questão de discordar de mim, gostava do artista, e me mostrou a beleza.

  Depois de dois anos fomos morar juntos, nos alegrávamos em decorar o apartamento, sempre que víamos um móvel, enfeite, bibelô, recorríamos ao outro em nossos planos cenográficos, em casa, nossos cheiros se misturavam envoltos no movimento frenético da dança ancestral que nos guiava ao gozo, numa noite assim, lhe mostrei minha primeira composição.

  A primeira dor veio depois de seis messes, um desentendimento bobo que revelava meus medos, larguei o antigo emprego e me dediquei totalmente a música, sem dinheiro eu queria um culpado e deixei meu egoísmo maldizer seus sapatos novos.

  A segunda dor foi o inicio do fim, uma colega, musicista talentosa, gostou de minhas composições, gostou de minha arte, gostou de mim, e eu traí. Traí a mim, traí a arte, traí a ti, ela não sabia que a beleza daquelas notas tinham sido roubadas de ti, e eu não sabia mais o que eu era.

  A última dor foi meu maior erro, não sabia lidar com as falhas anteriores, não podia abandonar a culpa, me entreguei ao trabalho, as partituras, as horas de solidão e nunca a você, era inevitável que então alguém o fizesse, eu chorei e você partiu.

  Hoje é uma noite importante, uma grande apresentação, você não estará ao meu lado, estará dentro da música, em cada compasso, na delicada pulsação, nos acordes trepidantes. Hoje você me ligou, desejou boa sorte, eu agradeci, já não sinto a sua falta é verdade! Já chegou ao fim, a música acabou, o público já se foi, a cortina se fechou.

  Mas ainda guardo em minha carteira o seu retrato.

  Este conto foi feito por Paulo Carvalho.

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5 Respostas to “Sinfonia”

  1. Nana B.Poetisa Says:

    Adorei o tom tristonho e desesperançado do personagem…

    Paulo, seu talento é inegável, pretendo segui-lo de perto.

    Meus parabéns…

    Nana B.

  2. Marilda Carvalho Says:

    Poxa Paulo, estou muito orgulhosa de você, quando penso que o seu forte são os temas regionais, me deparo com este conto! Parabens você é um grande talento.

    Marilda Carvalho

  3. Claudia Ka Says:

    Era uma vez um sabiá que não sabia assobiar….
    Era uma vez um pato careca casado com uma cabeleireira….
    Era uma vez um açougueiro sem nariz….

    É.

  4. Claudia Ka Says:

    É só uma forma nonsense de dizer que prefiro seus contos ‘jecas’.

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