A Carcaça

  Não se sabe de onde ele veio, qual motivo, qual destino deu aquele fim à criatura, mas ela estava lá, estirada na minha frente, os olhos esbugalhados, o bucho magro desenhando costelas no couro, já no primeiro encontro o cheiro, aquele cheiro forte que revirava o estômago e nos faz tampar a boca com trapo de pano.

  No começo eu tive curiosidade, terá sido doença? Pancada? Velhice não devia ser. Terá tido um dono? Alguém que se importasse? Ou era só mais um cão vadio que vive de revirar o lixo dos outros? Daqueles que se vemos por perto logo ameaçamos com pedaço de pau ou pedra.

  Eu não tinha idéia, mas estava lá, a carcaça do bicho, devia fazer pouco tempo que tava lá, talvez um dia, quem sabe horas, só sei que no dia anterior não tava, senão eu teria percebido, mas será que alguém recolhe isso? Dá um fim menos miserável pro coitado? Não sei, segui meu caminho pulando o bicho e seguindo em frente.

  Dia seguinte novo encontro, a coisa ainda tava lá, o cheiro tinha aumentado e algumas moscas apareciam em volta, já não tinha mais nenhuma curiosidade só o nojo mesmo, a vontade de xingar alguém por não se livrar daquilo logo, aquela porcaria que atravancava o caminho.

  A coisa continuou assim durante toda a semana, o bicho apodrecendo, depois de alguns dias já se antevia a tortura pelo olfato, me acostumei a levar um pano em que borrifava água de colônia toda a manhã, a imagem da criatura logo se anunciava como uma ofensa à dignidade do sujeito que trabalha, o mesmo caminho todo o dia, não tinha desvio possível, o negócio era encarar a putrefação com coragem.

  Na segunda semana não podia tomar café, se estivesse com algo no estômago o encontro era mais custoso, agora já se via buracos na pele, a brancura dos ossos se anunciava e mostrava que a maldita da morte não para de trabalhar, pular o bicho era cada vez mais difícil, porque ele ficava no meio do caminho seco, do lado o mato tava sempre úmido e sujava de barro o sapato da gente, os mosquitos eram tantos que alem da boca tínhamos que fechar os olhos.

  Na terceira semana a vida era a carcaça, saber que tinha que encarar aquilo, diariamente, não deixava os pensamentos no lugar, logo fui me tornando um bruto, sem paciência, tinha de acabar com aquilo de uma vez, ou sumia com aquela coisa podre, ou me apodrecia a vida.

  No fim de semana consegui um saco preto e fui até o cachorro, o cheiro da morte era insuportável, peguei o saco, enfiei a mão por um lado e diante do meu próprio asco peguei a cabeça do bicho, a coisa abriu no meio, e se esparramou uma mistura de vermes e vísceras, não contive a ânsia e acabei misturando vômito àquela nojeira, depois agarrei a perna de trás e coloquei dentro do saco, a parte grossa e dura da carcaça tava no saco, no chão ficou um resto de bicho meio líquido meio pastoso, vermelho e branco por causa dos vermes e do vômito. Fechei o saco e andei uns três quilômetros com o embrulho indigesto e fedorento, soltei ele numa rua onde já estavam alguns sacos empilhados a espera de recolhimento.

  Em casa joguei a roupa fora e fui me lavar, a imagem da carcaça aberta não me saia da cabeça, o cheiro não me saia do corpo, me esfreguei até ficar vermelho, abri uma ferida no braço, dela saiu sangue, por um minuto me vi naquela carcaça, eu estaria podre?

  Nos dias seguintes o resto pastoso do bicho foi sumindo, logo virou uma mancha, logo não era nada, mas todo dia quando passava pelo lugar ainda sentia o cheiro, ainda tinha que fazer o mesmo caminho, todo dia, a vida toda.

  Este conto foi feito por Paulo Carvalho.

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8 Respostas to “A Carcaça”

  1. Claudia Ka Says:

    Passa, passa, 3 vezes, o último que ficar… tenho mulher e filhos mais não posso sustentar…
    :0)
    Gostei.

  2. Claudia Ka Says:

    Passa, passa, 3 vezes, o último que ficar…. tenho mulher e filhos mais não posso sustentar….

    :0)

    Conto Legauz.

  3. Marilda Carvalho Says:

    Nossa, forte hem Paulo! Você fala da responsabilidade que temos sobre a vida e a morte. Quantos vimos caídos pelas ruas e achamos que não somos responsáveis, que não temos nada com isso! Será?

  4. kelly cris Says:

    O texto está contraditório demais, nao pq. vc tenha se expressado mal, mas pq. está com uma ênfase em matáforas muito grande, o que acaba deixando o texto chato e, como já disse contraditório…
    Desculpe… foi o que achei…

    bjss

    • projeto8 Says:

      Que é isso ninguem é obrigado a gostar, mas que bom que vc leu, só um detalhe: CADE VC????

  5. kelly cris Says:

    metáforas*

  6. Taci Says:

    Paulo o seu texto é bastante profundo, parabéns..Podemos pensar em diversas coisas, entre elas me veio em mente a questão dos significados que damos as coisas. Ainda utilizando o seu texto, percebo, que algumas coisas apesar de não estarem visíveis “pelas marcas”, possuem um significado próprio, na medida em que o damos. Algumas pessoas simplesmente não se importam em dar significação às coisas e às suas vidas em geral; vendo, não vêem e alienam-se diante da própria existência.
    Abraços da Taci :)

  7. Ariadne Says:

    Volto a repetir esta frase pela décima vez essa semana.
    ” O mundo é um triturador”…

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