O Enamorado

  O Coroné Leotério era homem bravo e importante, destes que o povo se descobre ao menor sinal de presença, e que os mais humildes raramente ousam dirigir palavra.

  Pois que os boatos começaram a se espalhar, quem seria a bela jovem que curioso viu passar pela janela da sala? Se cogitou que fosse uma amante, mas como o Coroné tinha moral ilibada achou-se esta idéia matutagem besta, por consenso geral ficou decretado que ela era uma filha dele à que o povo num tinha dado conhecimento, alguns pensaram abordar pessoa próxima, mas esta não sabia de resposta, posto que o Coroné fazia a moça se manter nos cômodos mais reservados quando de haver visita à casa.

  Acontece que tanta proteção e mistério só fez mais brotar a imaginação das gentes, alguns que anunciavam ter tido a sorte de avistá-la a descreviam como a mais bela moça a ter respirado o ar da vida, lenda corria que até um anjo do senhor ficara apaixonado pela moça e que voou assustado quando alguém o avistou, com tanta verdade e ficção junta como a palha e o fumo, acabou-se por muitos terem se apaixonado, vigílias se faziam a espera de um instante de beleza, mas estes eram concorridos e disfarçados pelo medo do escândalo e da carabina do Coroné.

  O único homem solteiro que se ria de todos era o professor Cadinho homem de estudo que sabia segredos dos bichos e do solo, e ainda se esforçava pra mostra o bê-á-bá pros peão das nossas bandas. Na verdade o professor era viúvo e já não tinha mais tanto ânimo pras aventuras que apertam o peito – “Beleza há de passar, o importante é que as idéias se encontrem” anunciava o sábio homem, que tal como o batista pregava no deserto, já que os ânimos de todos só sonhavam com a bela bem-querida.

  Mas mesmo com tantos suspiros, com tantas vigílias, e tanto sonhares, os solteiros iam se findando, já que a idade avançava e o medo de enfrentar o Coroné não refreava.

  Foi então que quando todos já tinham a bela como um sonho de nostalgia, anunciou o Zé Firmino – “Eu que sobrei solteiro, não tenho do que me valer. Vou enfrenta a fera e trazer pra mim a bela”, O povo não acreditou muito na súbita valentia do Firmino, tão feio e sem brilho que, tirando os amigos mais chegados, poucos se lembravam dele ao longo dos dias, alguns chegaram a rir da inocência apaixonada, mas eis que Firmino foi e tempo depois volta no boteco do Nego Jorge, Alegre feito porco quando chega a lavagem, Dizia que voltara vitorioso porque o Coroné permitira a corte, mas alertava esclarecimento tardio: a filha na verdade era sobrinha do Poderoso.

  Durante as semanas seguintes o povo não se continha, já que com a corte a moça saía de casa, acompanhada do agora enamorado Zé, pra ir às missas de domingo. E os outros homens já casados sentiam inveja do Firmino e raiva de si por não ter tido a audácia do pequeno traste. E olha que todas as fábulas de bonitesa eram pouco, a moça só num era mais linda por falta de capacidade admirativa, muitos casados seguravam o suspiro à força imensa quando do lado da esposa, a cidade nunca tinha sido tão devotada à cristo em anos.

  Então chegou o dia em que Zé Firmino anunciou – “é hoje que eu a enlaço, vô pedi a mão dela pro Coroné”. Tomou mais uma dose da marvada, acertou o devido ao Nego Jorge e foi-se confiante pela rua.

  Na noite do mesmo dia não se reconhecia o Zé, o homem mirrado, que até tinha ganhado um certo ar nobre, se desfaleceu no pior dos miseráveis, bêbado gritava para que todos ouvissem – “Sou um desgraçado, sou o maior desgraçado deste mundo inteirinho”, questionado o porque Zé Firmino deu com a língua, disse que a moça não era mais donzela, que assim que fez o pedido ao Coroné Leotério, esse mandou ele sentar e avisou que não podia esconder dele a verdade, o que foi um rasgo no coração do Zé que se partiu em pedaços de vidro quebrado.

  Então no meio de toda lamentação o velho Professor Cadinho, que também gostava de bebericá das suas, tem um rompante e grita pro Zé se calar que ele num passava de capiau atrasado, e que não ser donzela era coisa pouca pra tamanho despropósito, o Firmino, que por àquelas horas até pagava pra entra em briga, respondeu que se o professor gostava de marafona que fosse ele se casar com a perdida. Cadinho não agüentou tamanha cabeça-duriçe e deu um bofetão pro bêbado dormi de vez, se ajeito em seus panos cor castanho e declarou – “Pois que se é assim que este povo pensa, eu vou lhes dar uma lição”, e sumiu-se na noite.

  Tempos depois soube-se do casamento, dos filhos e que por muito tempo ninguém discordava de que não havia casal mais feliz e afortunado. Quanto ao Zé Firmino, acabou por morrer sem conhecer mulher, alguns dizem que no fim da vida ele só suspirava fundo e repetia pra si – “Sou um desgraçado, sou o maior desgraçado desse mundo inteirinho”.

  Este conto foi feito por Paulo Carvalho.

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2 Respostas to “O Enamorado”

  1. Iza Says:

    Muito bom, prende atenção!

  2. Claudia Ka Says:

    Não entendi.

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