Quando criança eu queria ser herói

  Quando criança eu queria ser herói – Estava olhando pra frase que me parecia tão promissora, um belo conto sairia dali. Falaria, quem sabe, dos pequenos prazeres de infância, do tempo em que corria com os pés descalços e como isso moldou o homem que sou, mas a verdade é que não conseguia ir além da bela frase.

  Resolvi dar um tempo, deixar a idéia na gaveta da memória, com algum tempo ela se desenvolveria sozinha e voltaria pra me contar suas aventuras.

  Durante semanas não me preocupei com isso, o pequeno herói estaria fazendo das suas e eu ia seguindo minha vida, com olhos atentos, procurando os segredos da história.

  Acontece, porém, que o inconsciente se fazia preguiçoso, ou era birra contra meus sonhos de super-humano, nada além da frase inicial, nenhum material com que trabalhar, mas duelando com a teimosia da mente sub-consciente, estava o também teimoso apego pela idéia, e minha cabeça se tornou como o topo da montanha que só responde em eco: “Ser herói, herói, ói”.

  Eu estava assim, sem entender o porque a frase me era tão querida e porque diabos nada surgia dela, resolvi viajar, voltar à cidade onde crescera, lá se esconderia o meu pequenino herói.

  Já fazia alguns anos que não voltava à cidade, nenhum ponto turístico, nenhuma graça, a cidade era só mais uma cidadezinha de interior, mas assim mesmo tinha sido meu refúgio o jardim onde se escondiam minhas raízes, talvez por isso sentia uma pressão no peito durante a viagem.

  Desci na rodoviária, fui direto ao hotel, tomei um banho, e fui à janela, me sentia estranhamente preenchido, meio feliz, meio com medo, meio amargurado. Devia ser por volta das dezesseis horas, o estômago começou a reclamar, procurei uma padaria, a velha padaria do centro, lugar proibido na infância, já que lá sempre estavam os bêbados acompanhados de suas dores, estava mudado, algumas reformas, nada estrutural, mas não mais o mesmo lugar, os bêbados já não tinham a mesma poesia, me senti um intruso, um forasteiro.

  Nada de grande aconteceu na primeira noite, jantei, voltei ao hotel, dormi. Dia seguinte acordo cedo, oito horas, sigo pra escola, as crianças brincavam como sempre, procuro uma antiga professora, já velhinha, mas ainda com o mesmo ar de mulher independente, a mesma emanação de sábia mestra, conto que fui seu antigo aluno que voltei à cidade pra relembrar, ela sorri, “ainda procurando seu tesouro?”, se despede têm alunos a cuidar, eu a vejo ir com seus passos tímidos, aquela mulher marcou-me a vida.

  Visito outros lugares, espaços de antigas brincadeiras, o passado de alguma forma me iluminava o agora, mas nada do meu heroizinho. Fico sabendo do paradeiro de Ferdinando, meu antigo melhor amigo. Vou visitá-lo, ele me abraça como se tivesse me visto ontem, me apresenta seus filhos a esposa, conversamos sobre a vida, amenidades, me sinto feliz de uma forma que já tinha esquecido, quando estou saindo ele me diz: “Todos temos muito orgulho de você. Já foi até sua mãe? Ela gostaria de sua presença”.

  Volto para o hotel e me lembro por que nunca voltei à cidade, minha mãe, tinha que vê-la antes de partir.

  Acordo no último dia de viagem, partiria na hora do almoço, antes disso vou visitar minha mãe. Lembro que na infância o cemitério municipal me dava medo, sempre tinha alguma boa história de fantasma, de espírito maligno, de almas atormentadas, o cemitério era lugar de fantasias, agora é só saudade, chego ao túmulo da família, me sento, e por algum tempo fico só a fitar a lápide, a foto já gasta, ainda demonstra a graça daquela que fora minha mãe, ela morreu pouco antes de eu deixar a cidade. Estava indo estudar, me formei, consegui um emprego, e nunca tinha voltado a visitá-la. Meu pai sempre me convidava nos dias de finados, mas eu sempre arranjava uma desculpa, agora sozinho eu comecei a chorar, mas não foi triste, pelo contrário foi um choro tranqüilo, de saudade, mas feliz por ter tido o privilegio de crescer com seus puxões de orelhas.

  Pego o ônibus, volto pra casa e descubro que finalmente encontrei aquele tesouro ao qual a professora se referiu, e o meu pequeno herói? Ele esta sempre comigo, pois foi ele quem me salvou.

Este conto foi feito por Paulo Carvalho.

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Uma resposta to “Quando criança eu queria ser herói”

  1. Naná Says:

    Lindo conto
    Beijo

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