O Anti-Efêmero

  Ariovaldo acordou com uma idéia fixa em sua mente. Nunca mais iria apagar nada que porventura escrevesse, nem uma vírgula, nem uma correção, nada. Nunca mais faria uso de borrachas ou quaisquer outros artifícios que pudessem esconder um erro. A memória precisa ser conservada, Deus pode estar numa vírgula mal colocada. Então deste dia em diante, Ariovaldo nunca mais ousou atentar contra a palavra registrada.

  Esta decisão a princípio simples mostrou-se caprichosa, os pequenos erros em bilhetes podiam ser ignorados, ou um novo bilhete podia ser feito, mas com a falta de tempo e a fadiga, reescrever, até uma pequena mensagem, era um ato desagradável, o que incomodava deveras era a letra trocada ao fim da lauda.

  Pela escrita eletrônica os problemas se mantinham era comum um simples memorando ter entre doze a trinta e cinco versões armazenadas na memória.

  Resolveu-se por ignorar estes pequenos deslizes, o leitor, pelo uso correto da lógica, que se ocupasse em descobrir as falhas do autor.

  Tal medida mostrou-se infrutífera, pois dela derivaram-se muitos desencontros, principalmente entre sua esposa e sua amante, já que a oficial chamava-se Cláudia e a outra tinha por alcunha o nome Gláucia, o estagiário nunca sabia a quem mandar um recado quando anotado ao pedido estava escrito: “Mandar para Gláudia”.

  Por fim Ariovaldo determinou que se não podia-se apagar nada poder-se-ia acrescentar algo, logo seus textos eram recheados de: “(erie) – errei no conteúdo entre parênteses -” algumas vezes haviam parênteses sobre parênteses mas isso acontecia com certa raridade.

  Quando esta solução já estava estabelecida e tudo corria com uma certa normalidade Ariovaldo percebeu uma mancha em sua blusa, a princípio ficou irritado com a lavanderia, perderia horas importantes do seu dia indo em casa trocar de roupa, entretanto, a mancha acabou por se mostrar como uma nova forma de escrita, e portanto não poderia ser apagada, nenhuma roupa deveria ser lavada pois a memória das coisas está contida na sujeira, a casa não deveria ser limpa e nem banho deveria ser tomado. Ter todos os dentes brancos é um atentado contra as marcas do tempo e há de se respeitar o tempo.

  Com estas atitudes Ariovaldo foi se isolando cada vez mais, à medida que as marcas eram mais fortes, menores eram o número de pessoas em seu entorno a amante nunca mais dera notícia e sua mulher num ultimato rejeitado acabou-se também por despedir-se. Tanto melhor, perdem-se as pessoas, mas ganha-se em experiência.

  Algum tempo de ermitagem depois, Ariovaldo ficou enfermo, foi levado ao doutor, deram-lhe um banho à sua revelia, mas o paciente negou-se a toma medicação. Dizia ele que as soluções químicas eram como apagar a história escrita pelas bactérias, nenhum apelo o fez repensar a sua posição, por fim acabou indo ao óbito. Em sua lápide ficou estampado a epígrafe: “Todo (respeisto) – errei no conteúdo entre parênteses – respeito à memória”.

  Este conto foi feito por Paulo Carvalho.

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Uma resposta to “O Anti-Efêmero”

  1. Naná Says:

    sem comentários
    ;*

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