Família vende tudo

I

  Na pequena casa de três cômodos, situado na zona leste de uma metrópole qualquer estava estampada a frase que anunciava o futuro da família. Sobre uma placa fina de madeira aglomerada, a podia-se ler em caligrafia pobre os dizeres “Família vende tudo”.

  Pintada pelo senhor José Antero, o chefe da família que ouvira boas novas a respeito da região mais ao sul do país onde um trabalhador de boa fé com certeza arrumaria bom trabalho.

  A despeito dos protestos de Dona Salustiana, José determinara novo rumo para os seus, notícias chegavam pelo boteco do Tião, parentes dos vizinhos que conseguiam boa vida, o sobrinho do Alcides que até carro tinha comprado e o neto da Catarina que estava pra casar, financiamento de casa própria e tudo.

  Além do senhor José Antero e da Dona Salustiana, a família ainda era constituída pelo pequeno Euclides e a jovem Arethuza. Os nomes foram escolhidos pela mãe que se inspirara nos folhetins que diariamente assistia pela TV.

  Com exceção do senhor Antero ninguém mais achara aquilo uma boa coisa, mas o respeito os tornava calados. Somente Dona Salustiana tentou discutir o assunto, mas a certeza de José era tal que o tornava violento. A esposa não mais o questionou.

  Acontece que a fortaleza daquele pai não era tão constante como a família imaginava, em seu íntimo José Antero vacilava, lembrou-se de seu pai que já havia feito peregrinação até a região do país onde crescera, lembrou-se de sua infância sofrida e do pouco conquistado, a incerteza tomava formas variadas. Ao mesmo tempo as certezas eram ainda maiores materializadas nos calos dos pés, nas roupas surradas, na falta de estudo, a esperança por mais incerta ainda era mais doce que o fel da atualidade.

  Os vizinhos andavam pelo pequeno cômodo, antes quarto, agora loja onde estavam expostos a reunião de cacarecos que formava o patrimônio da família.

  Sem dúvida os dois artigos mais valiosos eram a televisão de vinte polegadas e o toca-discos herdado por José. O patriarca esperava conseguir algo em torno de cento e cinqüenta reais pelo conjunto. A televisão foi bem vendida, sendo disputada pelos antigos amigos a família conseguiu cento e vinte reais, o toca-discos porém continuava sem despertar interesses, o que o Senhor Antero achava um absurdo, para ele, aquele sim era um artigo de luxo. Lembrou-se de quando jovem o vira pela primeira vez, seu pai por meio do crediário, inovação de uma loja que permitia aos trabalhadores mais humildes a extravagância de comprar tal aparelho. Sem dúvida muito melhor que os atuais aparelhos sonoros, feito todo de boa madeira, com botões prateados e fino acabamento, um aparelho com história.

  O único a se interessar pelo toca-discos foi um estranho, ele passava pela rua e curioso entrou para dar uma olhada nas ofertas.

  Ao perguntar pelo preço José lhe responde que um aparelho daquele valia no mínimo uns setenta reais, isso porque ele foi com a cara do moço que parecia ter bom gosto e ia cuidar bem do bichinho. O estranho pôs-se a rir, disse que pagava vinte, pagando bem. José Antero olho para o homem, para o toca-discos e disse:

  – Seu moço vai me desculpar, mas o dispositivo aqui é coisa fina, acabamento de primeira, o som é muito bom e isso aqui é madeira de verdade.

  – Olha se ele é tão fino assim porque ninguém mais parece se interessar? Isso aí é uma velharia, ninguém mais escuta disco, eu só me interessei porque gosto de coisa velha, eu ofereço vinte, agora se o senhor prefere ficar com esse peso morto não é problema meu – Secundou o homem.

  José calou-se pensou um pouco, pensou na longa viagem que faria, não teria como levar o aparelho, olhou mais uma vez para o toca-discos, engoliu seco e pegou os vinte reais do homem. Antes do rapaz sair José ainda disse:

  – Esse toca-discos tem história.

II

  No dia da venda Dona Salustiana teve muito trabalho, madrugou, faxinou o banheiro e a cozinha, passou um café e foi acordar a família, enquanto eles tomavam banho começou a desmontar o quarto, logo pediu ajuda aos filhos a menina desatarraxava os parafusos da cama, as roupas que iriam na viagem já estavam separadas nas malas, as restantes eram colocadas sobre um cesto de jornal que imitava vime, expostas para venda.

  Todos trabalhavam em silêncio com exceção do José Antero que assoviava um bolero enquanto pintava a placa na calçada em frente à casa.

  Com a responsabilidade de manter a família unida Dona Salustiana mascarava suas angústias, não entendia como podia ser bom abandonar o local onde nasceu e cresceu, onde conheceu o marido e teve os filhos, onde tinham amigos e família. Como um destino incerto e aventureiro poderia ser melhor que o amparo e a ajuda daqueles que conheceu por toda a vida?

  Na tentativa de afastar os maus pensamentos a mãe de dois filhos era metódica, varria o chão do quarto com uma obstinação que não permitiria a nenhum grão de poeira se esconder das fibras de piaçava.

  Sentia algo estranho na filha, ela estava mais distante do que costuma ser, na verdade já a algumas semanas a filha demonstrava um comportamento diferente, mais reservada, as vezes parecia triste, outras demonstrava um espírito cativante, uma inconstância que incomodava a mãe, mas neste dia em especial, ela estava ainda mais estranha.

  As angústias da mãe acabavam se misturando com a da filha e Dona Salustiana concluiu que tudo devia ser por conta da viagem.

  O menino por sua vez estava com os olhos assustado, parecia não entender nada, a mãe caridosa ajeitou as roupas do menino e lhe deu um beijo na testa, isso parece ter acalmado um pouco o pequeno que saiu até a porta acompanhado de seu inseparável cavalinho de pelúcia e ficou observando as pessoas que começavam a invadir as ruas.

  Quando os vizinhos começaram a entrar na casa da família Dona Salustiana os recebia com um sorriso e lhes oferecia café, passaria a tarde toda passando café e lavando copos. Esperava com certa ansiedade pela visita de Madalena, amiga de infância com quem ela sempre se confidenciava, e discutia sobre os rumos daqueles folhetins que inspirava nomes de filhos, na véspera ela tinha ido até a amiga e se permitiu um momento de fraqueza, sobre os braços da amiga ela chorou com medo da viagem e da solidão de terras desconhecidas.

  Até a hora em que José vendera o toca discos, Madalena ainda não aparecera, veio só no fim da tarde quando deram falta do menino, sob o pretexto de procurá-lo ela saiu com a amiga, juntas andaram por locais familiares à infância das duas, Salustiana se preocupava com o filho, mas na busca pelo menino ela se despedia de sua terra, vendo-se refletida nas casas do bairro, no bazar da esquina até no boteco do Tião.

  – Madalena reza por nós? – A mãe perguntou de repente.

  – Rezo. – respondeu-lhe a amiga.

III

 Euclides não entendia muito bem tudo que acontecia, o pai chegara um dia animado falando em se mudar, vida nova, e outras coisas que lhe deixavam confuso.

  Sentiu que a família toda de alguma forma estava estranha. O dia e que tivera que esperar fora de casa junto com a irmã enquanto os pais conversavam lhe marcou de um jeito que ele não saberia descrever, a irmã parecia impaciente e não lhe dava atenção e a mãe não parecia à mesma desde aquele dia.

  Na véspera ao dia das vendas ele chegara a uma conclusão, a família havia sido trocada por robôs alienígenas.

  Durante todo o dia em que chegou aquela idéia ele ficou observando a família a procura de provas.

  Primeiro foi a mãe que saiu durante a tarde enquanto o pai estava fora, isso não era muito comum de acontecer, depois mais a noite a irmã é quem sumira, com certeza eles já sabiam da desconfiança do menino e iam fazer relatórios aos seus superiores de outro planeta.

  Temendo ser substituído por um robô o menino demorou a dormir, encolheu-se todo na coberta e se manteve em vigília até que sem perceber acabou adormecendo.

  Acordou na manhã seguinte assustado a mãe acordava toda a família e uma revolução se armava na casa, com certeza alguma coisa grande aconteceria aquele dia, quando a irmã começou a desmontar a cama ele tinha certeza que a sua casa se transformava em base para uma grande invasão alienígena.

  Neste momento ele olhava tudo acuado, sem saber o que fazer, abraçou seu cavalinho e torcia para que seu amigo eqüino encontrasse uma forma de salvá-los. Quando algo lhe fez mudar de idéia, sua mãe se aproximara dele e lhe deu um beijo na testa como só a sua verdadeira mãe saberia dar.

  Este milagre foi um verdadeiro alívio para o pequeno que resolveu sair e olhar o movimento na rua.

  Aos poucos as pessoas iam entrando em sua casa e levando embora as coisas da família, abraçado ao seu cavalinho ele não entendia nada, porque estavam levando suas coisas? Ele viu passarem por ele com panelas, levarem a televisão e até o velho troço grande e engraçado que só o pai podia mexer.

  Andando entre as pessoas ele se sentia invadido, por vezes alguém vinha e lhe mexia os cabelos, lhe davam beijinhos dizendo que iriam sentir a falta dele.

  Em meio a tudo isso ele começou a ficar assustado, o que estaria acontecendo, será que ele se enganara em respeito ao beijo da mãe? Os robôs alienígenas seriam tão avançados que até o beijo materno era copiado?

  Com tantos medos e temendo também por seu amigo de quatros patas, o menino saiu da casa disfarçadamente e fugiu, correu o mais rápido que pode e se escondeu perto da escola talvez a professora o ajudasse, a menos que ela também fosse um robô.

IV

  Arethusa, não gostou nada quando o pai chegou em casa animado com a idéia de se mudar. Torceu para que fosse só uma idéia perdida que não daria em nada, fora isso confiava na mãe para dar juízo ao pai.

  Entre todas as coisas uma em especial fazia com que o desejo de seu pai fosse para ela uma opção terrível, Jorginho, o namorado da jovem a quem a poucos dias ela tinha entregado a virgindade.

  Jorginho era um garoto do bairro que estudava na escola de Arethuza, ele tinha fama de namorador por isso a garota fingia não dar bola ao rapaz, entretanto com o tempo eles acabaram se apaixonando e Arethuza tinha certeza que Jorginho só tinha olhos pra ela.

  O momento em que pela primeira vez a jovem sentiu-se mulher foi para ela mágico, os pais do garoto estariam fora durante todo aquele dia, então eles fugiram da escola no intervalo e se dirigiram a casa do garoto.

  Arethuza sabia que tinha encontrado seu príncipe e sonhava com o dia em que casariam e teriam filhos.

  Por isso a empolgação do Pai em se mudar para o sul a assustara, mais ainda quando menos de um mês depois ele marcara a viagem e um bazar para a venda das coisas da família.

  Uma outra coisa que a deixava perturbada era a menstruação atrasada, já vira meninas de sua classe engravidar, outras até abandonaram a escola, por isso ela tinha um pouco de medo.

  Foi uma destas amigas que já era mãe que lhe arrumou um teste de farmácia, seu coração disparara em ritmo alucinado e quando o teste anunciou seu positivo ela já sabia o que fazer.

  Jorginho parecia amedrontado, mas concordou com o plano de fugirem juntos no dia do bazar quando os pais estivessem ocupados em calcular o saldo do bazar e traçar os planos futuros.

  No dia combinado Arethuza sentia pena pela mãe, sentiria saudades dela, do pai e até do pivete do irmãozinho, com certa dor no peito ela se calou e não falou o dia inteiro.

  Quando sentiram a falta de Euclides, e a mãe saiu a procurá-lo ela percebeu ser a chance de executar seu plano, escondeu na mala de viagem a carta que escrevera pra mãe, e foi ao encontro do amado.

  Ao bater na casa de Jorginho quem veio lhe atender foi a mãe do rapaz, disse que o filho havia viajado cedo para a casa do primo e só voltaria dentro de dois dias.

  Arethuza não se conteve e começou a chorar lá mesmo, sem se preocupar com a opinião da ex-sogra que aflita lhe oferecia um copo d’agua. A moça desamparada agradeceu e começou a andar sem rumo.

  Quando a noite já se fazia alta, e as lágrimas já haviam secado, tudo que Arethuza sentia era uma ásperez na garganta, uma desilusão completa como se a ela não houvesse mais futuro.

  Neste momento ela ouve um choro baixinho, ao se aproximar vê o pequeno Euclides.

  – Todos estão procurando por você – diz a garota.

  O menino não diz nada e só abraça a irmã, esta a princípio atônita retribui o abraço, lhe acaricia os cabelos e beija-lhe a testa com muita ternura e diz:

  – Vamos pra casa, amanhã nos iremos viajar.

  O garoto pega-lhe a mão e juntos caminham para casa.

  Este conto foi feito por Paulo Carvalho.

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5 Respostas to “Família vende tudo”

  1. Celly Borges Says:

    Adorei o conto! A história muito bem desenvolvida, com final muito bom!

    ^.^

  2. najua r. Says:

    é. me lembrou algo de Vidas Secas rsrs
    gostei… espero sempre mais de ti(8)
    ;*

  3. Claudia Ka Says:

    Os nomes de seus personagens, não só deste conto, são o máximo.
    Neste conto ficou o gostinho de quero mais: e agora, o que vai acontecer ?
    Parabéns mais uma vez.
    ;-)

  4. Claudia Ka Says:

    O que será da vitrola ? Será ela a ligação da família com seu passado ? O que fará José Antero quando souber da situação da filha ? Eles realmente irão se mudar ? Se não se mudarem, como irão recuperar a vitrola ? Se se mudarem, como vai ser ?
    Ei, isso dá uma novela, em capítulos.
    ;-)

  5. Mensageiro Obscuro Says:

    Esse texto dá uma novela mesmo, a vitrola deve ter histórias talvez de outras famílias que a tiveram, fora os tantos discos tocados por ela há décadas.

    Que triste é saber que muitas crianças e adolescentes não saibam sobre sexo, então na tolice infantil acabam por ter relações sexuais sem preservativos, as meninas engravidam sem poder abortar pois no atraso do Brasil o aborto ainda é ilegal, até por forte apoio da massa composta por religiosos pró-vida.

    Gostei do final, deixa um gosto de “quero mais”.

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