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Simples

08/07/2010

Algumas vezes só precisamos de histórias simples, como aquela brisa suave num dia quente, ou aquela bela sequência de acordes que nos fazem sentirmos mais humanos.

Em momentos assim eu sempre me lembro de um sorriso, aquele sorriso tolo, descompromissado que antevê o riso.

Eu era garoto, devia ter por volta de doze anos, e estava emburrado, tinha tomado um tombo de bicicleta e minha fiel montaria se transfigurara em terrível vilã.

Alice estava rindo, de doer a barriga, tinha visto a queda e agora troçava de mim, eu só sabia fazer aquela famosa cara amarada. “Vai ficar rindo até quando”. Esbravejei do alto de toda a minha fúria ameaçadora. Por um instante ela conteve o riso, me encarou e tornou a explodir em gargalhada.

“Pra vocês meninas é fácil, não tem de saber de nada”. O desafio fora lançado, eu sabia bem a reação que se seguiria. Até aquela época era fácil, as meninas eram todas umas bobocas com cara de enjoadas que não sabiam de nada. Deu-se a discussão, você isso, você aquilo, duvido, disputa, desafio.

“Quem descer o morro mais rápido ganha”. Montamos em nossas magrelas, fomos até o alto do morro, ninguém ousou subir empurrando a bicicleta, a teimosia ganha sempre do bom senso. Últimas provocações antes do 1,2,3 e já.

Descemos em alta velocidade, a tensão e a emoção à flor da pele o olhar obstinado, nos mantínhamos lado a lado, não é que essa menina é boa? Quase na chegada o choque, duas crianças voando, duas bicicletas no chão.

De novo não, pela segunda vez seguida meu alazão cromado me atira ao chão. Levanto pronto pra xingar, não sei como aconteceu só sei que a culpa é dela, avanço bravo, mas antes de conseguir falar ela chora, não o berreiro costumeiro das meninas, ela chora baixinho, deve ter machucado mesmo.

Ela me encara com os olhos molhados, espera que aproveite da fraqueza e tenha meu momento de vingança, mas estranho, só quero protegê-la. “Machucou?” O choro vai diminuindo eu ainda aflito olho pras bicicletas no chão enroladas uma na outra e digo: “As bicicletas tão namorando” ela olha e ri. o choro cede as gargalhadas.

Eu a levanto. “Te ajudo a chegar em casa depois busco as bicicletas”. Vamos os dois abraçados ela mancando um pouco, no dia seguinte já não teria mais nada, mas agora ela precisa de mim.

No portão da casa dela a mãe vêm toda preocupada. “Não foi nada”. Alice se apressa a tranquilizar a mãe. “Vou buscar as bicicletas agora”. Eu aviso, ela concorda e me sorri, eu sinto um comichão nas pernas, o coração bate forte. “Como ela é bonita”. Desperto, me apresso e corro feliz pras bicicletas.

Ainda hoje, sempre que preciso sorrir eu me lembro das bicicletas enroladas no chão e de como elas me ensinaram a namorar.

Este conto foi feito por Paulo Carvalho.

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