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Pedras na Água

29/06/2011

 O menino atirava pedras na água. Seus olhos pequeninos acompanhavam as oscilações circulares que se desenhavam na superfície, perguntava-se se as ondas que criava causavam impacto no fundo invisível do lago.

A mãe chama, o almoço está servido. Pequenas pernas corem em busca de abrigo materno. Comida de mãe tem gosto bom.

Os pezinhos balançam na cadeira, o garfo espeta os pedaços de carne previamente picados – Mãe, o pai chega hoje?

Adalberto. O nome dele pulula na mente daquela mulher, a jovem que aparenta ser velha engole seco, enxuga as mãos no pano de prato, manda o menino não falar de boca cheia.

Mais tarde a roupa suja. Roupas de madame lavadas no lago pra afastar a miséria e o pensamento ruim.

Jurema tá sempre rindo, cantando músicas tristes e rindo, do que ela ri? Melhor deixar isso de lado, o que enche barriga é roupa limpa não curiosidade besta.

A mulher segue em sua lida. As canções da colega lhe apertam o peito, porque? Jurema sempre cantou, a vida sempre foi besta, por que diabos a voz da negra me dói?

Volta o menino, o sorriso inocente da criança denuncia traquinagem, ele para ao lado da mãe e a observa.

Pega uma pedra e a fica jogando entre uma mão e outra, o lago chama a pedra, o seu desejo é voltar a ser construtor de ondas, as lavadeiras ocupam o lago, mãe briga se menino tenta brinca no lago em hora de trabalho.

O magnetismo do lago confronta a força de vontade do pequeno, canto de sereia é forte demais, pedra quer conhecer o mundo submarino.

Água por todo lado, gritaria de lavadeiras, riso de Jurema.

Menino tem de aprender a não aprontar, chinelada como espetáculo público, amargor de vida dirigido a bunda de criança.

A vida pode ser injusta, porque fazer ondas é perigoso? Qual o impacto no fundo do lago?

O serviço segue, por um tempo não se conversa naquele lago, Jurema rompe o silêncio, canto triste pra vida vazia, choro apertado num se agüenta escondido nos olhos.

Ninguém pergunta, todas conhecem, todas sabem a letra daquela canção, compartilham dor, compartilham o lago. Outras lágrimas caem de outros olhos, só Jurema ri.

Mistério de Jurema como rir na canção triste. Termina o trabalho, à noitinha caí. Hora de dar banho no menino.

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Anacrônico

20/06/2011

 Venho por esta missiva anunciar a vossa-mercê dos muitos percalços que tem recaído sobre nossa instituição. Os fatos e acontecimentos que irei narrar merecem a mais arguta atenção, pois requerem medidas, deveras, urgentes.

Acontece que no dia 23 de agosto de 2588, chegou a nossa base um forasteiro, aparentemente perdido.

O sujeito parecia não ter memória, ou quaisquer antecedentes que pudessem revelar sua história ou suas intenções. A sua identificação pessoal estava avariada não permitindo a correta leitura por nossos instrumentos legais.

Acabamos por nos referir ao cavalheiro como TPX161-05, sendo esta a inscrição da ocorrência em nossos registros.

O indivíduo foi encaminhado para a unidade de tratamento de distúrbios psico-comportamentais, onde foram feitos todos os exames comuns a este quadro clínico, marcou-se sessões de eletro-choque e o paciente ficaria aos cuidados da enfermeira-padrão181.

No primeiro pernoite, tiveram início os eventos que fazem este caso singular e merecedor de especial assistência.

Enquanto faziam a vigília noturna, os equipamentos dispararam, verificando-se perigosas oscilações, ao contrário do esperado notou-se forte atividade psíquica durante todo o período inconsciente do indivíduo.

Ao ser questionado TPX161-05, narrou-nos estranhas imagens ilógicas, que formavam um relato impossível. Os psico-diagnósticos não acusavam tal feito a alguma patologia registrada. Uma pesquisa fora encomendada aos medi-registrólogos 1 e 2. que deveriam verificar a possibilidade de casos análogos em outras instituições dentro das quatro grandes áreas de referência global.

O paciente voltou a ser posto aos cuidados da enfermeira-padrão181 que deveria encaminhá-lo a primeira sessão de eletro-choque. A profissional apontou em seu relatório diário que TPX161-05 estranhamente a abordou questionando-lhe sobre seu nome. O fato mostra-se ainda mais curioso se observarmos que pela constituição física do paciente, este não poderia ter sido gerado antes do decreto 59868/2522 que extinguiu tal referências pessoais em favor do sistema de registro geral.

Durante a sessão tudo corria com normalidade, o estranho reagia com contrações e espasmos naturais a este procedimento, também verificou-se os brados que naturalmente acompanham as descargas elétricas, a certa altura instalou-se um silêncio e mesmo após o aumento da carga o paciente manteve-se calado. Ao observarmos as ondas neurais verificou-se forte atividade, apesar do desfalecimento de TPX161-05.

Este fenômeno se repetiu nas três sessões seguintes, quando resolvemos abortar os eletros-choque até conseguirmos mais informações.

Continuou-se a forte atividade psíquica noturna, e apesar dos esforços da enfermeira-padrão 181 o sujeito continuava a abordá-la com questões absurdas.

Após um período de duas semanas sem grandes avanços, a enfermeira-padrão 181 parou de relatar sobre os questionamentos e começou a ter comportamentos atípicos, verificou-se que ela passava mais tempo com TPX161-05 do que o recomendado em sua ronda diária.

Então decidiu-se afastá-la do indivíduo, estranhamente ela desenvolveu secreções lacrimosas ao ser informada sobre as novas medidas e nesta noite ela passou a ter as mesmas atividades psíquicas noturnas de TPX161-05.

Os dois foram encaminhados para a quarentena em cabines individuais e estão à espera de novas medidas.

Os relatórios dos medi-registrólogos nos apontaram um caso similar em uma unidade da instituição na zona 25 da Área segunda de referência global. Lá o caso terminou com a total eliminação de cinco indivíduos entre eles o paciente local que possuía o registro geral arquivista-documental 3598. Não foi verificado a origem do distúrbio mas o diagnóstico apontou o caso como disfunção Onírica.

Devemos lembrar que qualquer atividade onírica foi suspensa a mais de 200 anos, tornando o caso realmente perigoso para a manutenção da nossa sociedade modelo.

Em vista de tais ocorrências espero uma visita oficial técnica, bem como uma posição do ministério sobre quais medidas devem ser tomadas.

Diretor-biopadrão 57.

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O assessor-ministerial DS-12 estava fazendo movimentos circulares com o polegar sobre o indicador na mão direita, hábito que há muito adquirirá, mas só se permitia fazer em momentos de alta tensão ou exacerbada distração. No momento ele estava dirigindo-se ao portal da instituição para investigar o caso singular relatado ao ministério, mas ao contrário do esperado o caso não lhe despertava curiosidade, somente fastio e um certo asco, se bem que em níveis mínimos, por aquela região tão distante do centro de referência ministerial onde o assessor vivia sua rotina.

O homem de estatura mediana, embora um pouco atarracado, e quase sem pescoço tinha hábitos modestos. Gostava, por exemplo, de conferir a organização dos registros de sua unidade e tinha especial prazer em corrigir falhas de nomenclatura, falhas que ele considerava ultrajantemente perigosas.

Com tais hábitos bem enraizados era de se supor que uma viagem investigativa como essa, lhe causasse desgosto, justamente pelo seu caráter de ineditismo.

Ao atravessar o portal o assessor-ministerial DS-12 foi recebido pessoalmente pelo diretor-biopadrão 57. Este parecia aliviado com a presença oficial, e logo após os comprimentos apresou-se em dizer que a situação havia se agravado.

Os dois seguiram para a seção correspondente enquanto o responsável local ia relatando as novidades do caso.

Naquele dia o assessor-ministerial apenas checaria toda a documentação e ficaria a par de todas as minúcias, no dia seguinte se daria a entrevista com TPX 161-05.

O homem do ministério estava sentado, conferido sua anotações, enquanto o alvo de seu estudo o seguia com os olhos. TPX 161-05, estava acomodado sobre a pequena cama de sua cabine de contenção aguardando o sujeito se manifestar, para ele era somente mais um dos incontáveis procedimento a que fora submetido, e por mais que julgasse a sua situação difícil, estas últimas semanas em que ficara só e confinado foram, para ele, as mais “agradáveis”, como não recordava-se do passado começou a criar uma história pra si mesmo.

– Senhor TPX 161-05 – Disse o assessor-ministerial.

– Me chame de Bernardo – Respondeu o paciente.

– Creio que isso não seja adequado – Olhou censurando – O senhor alega não se recordar de nada antes de sua entrada na instituição?

– Só lembro de acordar aqui com uma dor de cabeça enorme.

– Lembra-se de tudo que ocorreu por aqui, desde que chegaste?

– Não há muito o que lembrar, os dias aqui são todos iguais, testes e mais teste, aquelas sessões de choque – Faz uma pausa, suspira – Depois disso o confinamento.

Durante todo o tempo o oficial media TPX 161-05, vez ou outra fazia alguma anotação, ao ouvir esta última resposta ele deixa os papéis de lado encara-o e diz: – Me fale sobre suas noites, sobre os distúrbios que lhe assolam enquanto dormes.

– Que distúrbios? Eu apenas sonho, durmo e sonho, as vezes são engraçados como a noite em que sonhei que todos aqui só falavam rimando o diretor ainda cantava e dançava.

– O que isto tem de engraçado? Um comportamento como este não seria aceitável no ambiente de trabalho, ainda mais a um homem como o diretor-biopadrão 57.

– Por isso é engraçado.

-Acha que nossas convenções são motivo de piada? Pois saiba que são elas que garantem todo nosso equilíbrio social, antes disto era o caos, guerras, misérias, se não fosse seu problema de memória certamente se recordaria de vossos estudos de história.

– Você estava em meus sonhos, agora eu me lembro, o arquivista que construía montanhas de documentos, as escalava e do alto perguntava “onde estará meu relógio?”, porque diabos você queria um relógio do alto de sua montanha de papéis é algo que eu nunca entendi, você saberia me dizer porque?

O assessor-ministerial parou por um minuto encarando TPX 161-05, depois levantou-se pegou suas anotações e saiu da cabine.

O interrogatório pareceu perda de tempo aos olhos do assessor-ministerial DS-12, o homem com certeza estava fora de seu juízo e deveria ser submetido a uma reeducação formal, o problema se dava com relação aos “sonhos” do paciente, já que o mesmo não deveria tê-los, pois além de constituir contravenção clara ao regulamento a simples existência de tais atividades demonstrava uma falha no sistema de manipulação genética. Segundo os registros do governo já haviam cinco gerações em que o gene do sonho já fora suprimido por completo, tal caso portanto era uma aberração clara a ordem geral.

O próximo passo seria averiguar a situação da enfermeira-padrão 181, observar se a mesma apresentava o mesmo nível de alienação psíquica que TPX 161-05.

Assim que o oficial entrou na cabine da funcionária, a mesma levantou-se rapidamente e se pôs em posição de respeito, isto pareceu um bom sinal aos olhos do assessor, que logo sentou-se na mesma posição e distancia que tivera na entrevista do paciente atípico. Checou suas anotações, vez por outra olhava a enfermeira-padrão que não ousava encarar o homem do ministério.

– Sabe quem eu sou? – ele perguntou com dureza.

– Sim senhor – ela disse com uma voz que parecia lutar para sair.

– Pois bem, então poderia me explicar como atreveu-se a tamanho desvio da norma? Uma senhora que deveria assistir ao paciente em sua recuperação e não incentivar tais atividades ultrajantes.

– Senhor, me perdoe, mas eu poderia lhe fazer uma pergunta?

– Isto não é habitual, mas pergunte.

– Antes de vir conversar comigo o senhor deve ter falado com Bernardo, poderia me dizer se ele está bem?

– Como? Então insiste neste comportamento vergonhoso? O estranho é que antes deste caso a senhora possuía uma ficha exemplar, como pode se perder tão facilmente?

– O senhor já se apaixonou? Já se preocupou com alguém?

– Não queria me rebaixar a níveis tão mundanos, eu me preocupo com o bem comum.

– E como pode ter tanta certeza de que isto – Faz referência ao espaço em volta – É o bem comum, por que acha que assim estamos bem?

– Não se faça de ignorante, sabe tanto quanto eu que em nossa sociedade modelo, não há crimes, nem gerras, ou mesmo infelicidade, não há motivos pra atacarmos o modelo.

– É preciso sentir algo para ser infeliz, e já faz tempo que nenhum de nós sabe o que é isso, Bernardo não é uma anomalia, ele é como uma criança que veio nos ensinar a perder tempo, a rir, a sentir, não percebe o quanto isto é óbvio?

– Enfermeira-padrão 181 queira…

– Clara, é como deve me chamar, não admitirei mais ser definida por uma função, não abro mão de minha individualidade.

– Parece-me então que temos um problema.

– Temos muito mais que um problema.

O comportamento da enfermeira-padrão 181, deixou o assessor-ministerial DS-12 perplexo, uma coisa era um sujeito que aparece do nada com tais desvios de conduta, outra era uma profissional que sempre fora eficiente atacar o que de mais vital representa o bem estar geral, o trabalho seria mais complicado do que pensara.

O oficial trancou-se no gabinete que haviam lhe reservado, e passou a estudar métodos de reeducação comportamental, os modelos apresentados pareciam não se encaixar a esta situação, não havia como comparar adolescentes que falham em seus prazos de estudos com uma situação como esta, ele precisaria de registros mais específicos.

Cansado ele deitou-se no divã que havia no gabinete e adormeceu.

Foi acordado pelo despertador de seu relógio, acordou em um salto e ao desligar o despertador parou um instante observando o aparelho, foi interrompido pela entrada do diretor-biopadrão 57, que buscava informações sobre como deveria proceder.

O assessor-ministerial mandou que se mantivesse o cativeiro por algum tempo ele deveria entrar em contato com o ministério em busca de novos protocolos de reeducação social.

O ministério mandou que ele os mantivesse atualizado sobre o quadro geral enquanto uma equipe especial desenvolveria as possíveis soluções.

Por algum tempo, o assessor só seguiu a instrução, diariamente ele monitorava as ações de TPX 161-05 e da enfermeira-padrão 181, a situação lhe era terrivelmente enfadonha, e manter-se assim tão longe da central fazia-o sentir-se diminuído. Os dias pareciam arrastar-se, e os corredores ascépticamente brancos da instituição começavam a de uma forma estranha lhe oprimir, ele não podia deixar transparecer seu descontentamento, mas sem perceber começara a evitar os corredores, isso o fazia ficar mais tempo monitorando os pacientes.

A monitoração era feita por câmeras secretamente instalada nas cabines individuais, a enfermeira-padrão 181 com certeza sabia de tais dispositivos, mas não tinha como saber em que lugar e sob qual angulo lhe captavam a imagem, pois as câmeras de monitoração podiam se mover e captar a cena de qualquer ponto da cabine, sendo ao mesmo tempo invisível e silenciosa. A sala de monitoração em si possuía uma luz ocre com diversos registros organizados por nome e ordem cronológica e uma das paredes era totalmente tomada pelos monitores de observação, alguns pequenos controles se apresentavam em frente á tela, mas os controles mais usados para navegação ajuste de câmeras eram operados remotamente por um controle que ficava a disposição sobre a poltrona de observação, onde se encontrava o assessor-ministerial DS-12.

Durante muito tempo pareceu que TPX 161-05 não fazia nenhuma ação que pudesse ser considerada estranha, as atividade psíquica noturna continuou claro mas o sujeito passava muito tempo sentado, se alimentava e fazia suas necessidades de forma normal, andava um pouco pelo quarto e nada mais. O tempo parecia congelado. Um dia entretanto depois de horas de observação infrutífera o paciente começou a sorrir e depois gargalhar sem motivo aparente, até que ele soltou a expressão “entendi”.

Após este dia, o paciente começou a agir de forma diferente, fazia movimentos no ar, e parecia maquinar alguma coisa, tudo com uma grande satisfação. O assessor-ministerial ficava cada vez mais perplexo sem contudo descobrir o que se passava com TPX 161-05.

Três dias depois que o movimento começou, a curiosidade do assessor o dominou completamente, não conseguia conter o movimento dos dedos, resolveu ir falar com o paciente.

– O senhor pode me explicar o motivo de tanta agitação? – disse o assessor.

– Olá homem do tempo, você veio para a viagem? – replicou TPX.

– Viagem, o senhor não sairá daqui tão cedo.

– Você não poderia estar mais enganado e lhe digo que dentro de três dias eu você e Clara iremos fazer uma grande viagem.

– E pra onde será esta viagem.

– Isto meu amigo é o verdadeiro mistério.

A conversa deixara o assessor ainda mais curioso, ele censurava-se por isto, pela primeira vez a ordem lhe fugira entre os dedos. Amigo, TPX 161-05 lhe chamara assim e ao contrário do que poderia parecer, não se tratava de ironia, mas um afeto verdadeiro, o assessor simplesmente sabia disso, tinha certeza e esta certeza lhe exprimia o peito.

Uma montanha de papéis espalhados de repente estava bem no meio do gabinete pessoal do assessor, ele se lembrava de ter abandonado a sala de monitoramento para descansar um pouco e de repente ele encontra a sua sala virada do avesso, ouviu a voz de TPX 161-05 lhe chamando de homem do tempo do outro lado da pilha de documentos, contornou os papéis para encontrá-lo, mas este parecia que estava fugindo correndo ao redor da pilha, irritado o assessor se lança sobre os papéis na tentativa de diminuir a distância, de repente ele se vê escalando uma pilha intermináveis de papéis, olha pra baixo e não consegue distinguir o chão, parece estar a uma altura realmente alta uma baforada de vento quase o derruba de lá, ele se agarra com força a sua montanha de papéis e vislumbra um pouco acima o cume, resolve subir pois lhe parece um lugar mais seguro. No alto de sua montanha de papéis está um pequeno relógio de mão, ele o apanha abre a tampa, mas no lugar das horas parece que este relógio conta a sua vida, isto permite ao assessor ter uma perspectiva nova de sua própria vida o que é terrível e maravilhoso, tudo parece tão claro e tão triste, eis que outra baforada de ar lhe tira o equilíbrio e faz o relógio cair montanha abaixo, desesperado o oficial estende os braços e grita pelo relógio – Porque diabos você fica procurando por um relógio do alto de uma montanha de papéis? – De repente aparece TPX 161-05 perguntando – Você não entende é minha vida – Um relógio velho é sua vida? -Não é só um relógio… eu não sei o que é, mas sei que preciso dele – Parece que caiu lá embaixo – Eu sei que caiu, vou tentar descer esta montanha – A única forma de você chegar a tempo é pulando – Mas desta altura eu morro – Ué pensei que sua vida tivesse ido com o relógio. Ele olha o abismo e sabe o que deve fazer.

O assessor-ministerial DS-12 acordou sobressaltado, o que eram aquelas imagens? Era tudo impossível, como poderia ter acontecido? Sem dúvida ele padecera do mal de TPX 161-05, e ele precisava esconder isso de alguma forma, correra para os registros de atividade noturna, como toda a noite TPX e a enfermeira-padrão tinham as atividades psíquicas os alarmes de desfunção foram desligados, isso possibilitou que o assessor apaga-se os registro daquela noite, por hora estava salvo.

Durante todo o resto do dia o incômodo constante do assessor se transformou em uma angústia alucinante, o suor frio o acompanhava todo o tempo e não conseguia completar os pensamentos, se disse maldisposto na tentativa de disfarçar a situação, os medi-diagnósticos apontaram o quadro como alto stress, e lhe foi dado um dia para se recuperar.

Antes do fim da tarde ele obteve a resposta tão aguardada do ministério, a solução era a total eliminação dos indivíduos, apesar de bárbara era a única ação que garantiria a manutenção do bem comum, uma equipe de limpeza se apresentaria no dia seguinte.

O assessor já esperava por esta resolução, mas após os eventos desta noite a notícia viera em péssima hora, ele não teria tempo pra solucionar o seu caso, descobrir o que havia com ele, e alguém descobrisse ele também seria eliminado, teria que fazer algo, mas o que?

Não poderia dormir, era muito perigoso, ficou zanzando pelo gabinete, tentando pensar numa solução enquanto as horas lhe escoriam pelos dedos, sentou um pouco pensando em como resolver o problema.

Se viu na beira do abismo e o universo vazio parecia lhe chamar pelo nome, qual nome? Ele atirou-se e sentiu seu ser unir-se ao abismo não existe mais papéis ele sabe o que deve fazer.

Acordou pegou as chaves e dirigiu-se para a cabine de Bernardo, este já o esperava, é hora da viagem.

Os três se esgueiravam pela vegetação que ficava de fora da instituição enquanto o alarme soava alto nas suas costas, a caçada começara eles eram acossados ferozmente por todo o sistema, enquanto o sol não nascera eles conseguiram alguma distância, agora que estava claro a chances deles eram mínimas.

O esquadrão de limpeza era formado por profissionais selecionados por um árduo processo, a maioria dos indivíduos que iniciavam o treinamento acabavam como guarda-padrão só os indivíduos altamente competentes recebiam a alcunha de limpador-especial e eles estavam atrás dos fugitivos.

Eles conseguiram chegar até a borda de um precipício, nem mesmo Clara sabia deste abismo, eram terras que não faziam parte do ambiente de vivência comum e não eram explorados por nenhum cidadão sobre ordem expressas pelo normativa geral.

Sobre seus rastros o esquadrão de limpeza avançava rápido. Clara olhou para Bernardo e confessou o seu amor, os dois deram um beijo sincero e apaixonado o assessor-ministerial DS-12 sentiu-se reconfortado por entender a poesia pela primeira vez.

– Está na hora da viagem, meu amigo. Disse Bernardo.

– Eu sei respondeu o assessor, quero agradecê-los por tudo.

– Clara lhe deu um beijo na face esquerda, ele sorriu.

– Vamos então?

– Vamos, os outros concordaram.

Se postaram na margem do abismo, olharam para o universo vazio que os chamava.

– Eu, Bernardo vim de uma cidade do interior onde brincava de bola com os meninos na rua e depois de velho me apaixonei por Clara nos casamos e fomos felizes.

– Eu, Clara me formei enfermeira para ajudar as pessoas e um dia me apaixonei por um paciente, Bernardo, nos casamos e tivemos dois filhos e fomos felizes.

– Eu, José encontrei meu relógio guardado com um grande amigo e finalmente pude ser feliz.

Os três deram-se as mãos e se unirão ao universo.

Quando o esquadrão de limpeza chegou segundos depois descobriu que pela primeira fez falhara numa missão.

Simples

08/07/2010

Algumas vezes só precisamos de histórias simples, como aquela brisa suave num dia quente, ou aquela bela sequência de acordes que nos fazem sentirmos mais humanos.

Em momentos assim eu sempre me lembro de um sorriso, aquele sorriso tolo, descompromissado que antevê o riso.

Eu era garoto, devia ter por volta de doze anos, e estava emburrado, tinha tomado um tombo de bicicleta e minha fiel montaria se transfigurara em terrível vilã.

Alice estava rindo, de doer a barriga, tinha visto a queda e agora troçava de mim, eu só sabia fazer aquela famosa cara amarada. “Vai ficar rindo até quando”. Esbravejei do alto de toda a minha fúria ameaçadora. Por um instante ela conteve o riso, me encarou e tornou a explodir em gargalhada.

“Pra vocês meninas é fácil, não tem de saber de nada”. O desafio fora lançado, eu sabia bem a reação que se seguiria. Até aquela época era fácil, as meninas eram todas umas bobocas com cara de enjoadas que não sabiam de nada. Deu-se a discussão, você isso, você aquilo, duvido, disputa, desafio.

“Quem descer o morro mais rápido ganha”. Montamos em nossas magrelas, fomos até o alto do morro, ninguém ousou subir empurrando a bicicleta, a teimosia ganha sempre do bom senso. Últimas provocações antes do 1,2,3 e já.

Descemos em alta velocidade, a tensão e a emoção à flor da pele o olhar obstinado, nos mantínhamos lado a lado, não é que essa menina é boa? Quase na chegada o choque, duas crianças voando, duas bicicletas no chão.

De novo não, pela segunda vez seguida meu alazão cromado me atira ao chão. Levanto pronto pra xingar, não sei como aconteceu só sei que a culpa é dela, avanço bravo, mas antes de conseguir falar ela chora, não o berreiro costumeiro das meninas, ela chora baixinho, deve ter machucado mesmo.

Ela me encara com os olhos molhados, espera que aproveite da fraqueza e tenha meu momento de vingança, mas estranho, só quero protegê-la. “Machucou?” O choro vai diminuindo eu ainda aflito olho pras bicicletas no chão enroladas uma na outra e digo: “As bicicletas tão namorando” ela olha e ri. o choro cede as gargalhadas.

Eu a levanto. “Te ajudo a chegar em casa depois busco as bicicletas”. Vamos os dois abraçados ela mancando um pouco, no dia seguinte já não teria mais nada, mas agora ela precisa de mim.

No portão da casa dela a mãe vêm toda preocupada. “Não foi nada”. Alice se apressa a tranquilizar a mãe. “Vou buscar as bicicletas agora”. Eu aviso, ela concorda e me sorri, eu sinto um comichão nas pernas, o coração bate forte. “Como ela é bonita”. Desperto, me apresso e corro feliz pras bicicletas.

Ainda hoje, sempre que preciso sorrir eu me lembro das bicicletas enroladas no chão e de como elas me ensinaram a namorar.

Este conto foi feito por Paulo Carvalho.

Romaria

13/04/2010

  Já escapamos do maldito por algumas vezes, hoje será o derradeiro encontro.

  A coisa começou há vinte cinco anos quando conheci Mirabel, com seus cachos dourados o rosto redondo e faceiro. Ela era prometida pro santo, devia se entregar ao convento pra mó de pagar uma promessa que fizeram a fim de alcançar a saúde da mãe em momento difícil.

  A velha nestes tempos já tinha empacotado, apesar de ter recobrado a vida na época do juramento, ela veio a falecer dois anos depois quando deu luz à prometida Mirabel.

  O pai dela, comerciante de respeito, era homem de palavra e mesmo sofrendo com a perda da mulher tava determinado a cumprir a promessa de dedicar o primeiro filho seja homem ou mulher a devoção de Santo Expedito.

  Acontece que o destino, traiçoeiro que só, resolveu prover meu encontro com Mirabel, quando nossos olhares se cruzaram as almas selaram um acordo de nunca se distanciar.

  O pai dela não aceitou que eu fizesse a corte, invés disso me escorraçou proferindo palavra que criança não deve ouvir, dizendo que ela era do santo e não de um diabo de traste como eu, e que a sua entrada no convento era a garantia de ascensão ao céu da velha mãe morta.

  Acabou-se que a solução foi a fuga, na noite determinada eu peguei meu cavalo cheguei debaixo da janela e nos mandamos embora. Ainda vimos o pai dela gritar que ela era uma excomungada e que se ela não seria do santo não ia ter direito de viver.

  Passamos então a ser caçados, Mirabel de santa se tornou herege, e o velho com seus matadores estavam sempre em nossos calcanhares.

  Lembro de uma vez em que dormimos numa pensão velha cheirando a mofo, acordamos com a barulheira que se fazia, quando percebi o homem tinha botado fogo em tudo e foi só eu espiar pela janela que um tiro passou zunindo na orelha. Dava pra ouvir o homem falando que daquela noite a gente não passava, que o fogo ia purificar aquela terra da nossa blasfêmia e mais um monte dessas coisas que dizem aqueles que são entendidos em professar o certo e o errado.

  Como escapamos daquela arapuca eu nem sei direito, só sei que se deve a esperteza deste jeca e a ligeireza do meu alazão.

  Peguei os panos da cama, enfiei na água da bacia que servia pro banho e fui mais Mirabel em direção ao fogo do lado inverso da janela, nisso eu já chamava o Rufião que era o nome do meu cavalo, só sei que nos atiramos por entre as chamas na primeira fresta de luz que se apareceu, montamos no animal foi só barulho de tiro nas costas.

  Quando conseguimos dar certa distancia nos enfiamos no meio do mato, na tentativa de despistar e tomar fôlego. Pois que aí eu avistei um pequeno casebre no meio do mato, uma luzinha miúda vindo de dentro.

  Foi então que percebi que minha amada estava ardendo em febre, balbuciava coisa sem entendimento, acabei resolvendo seguir pro casebre.

  Chamei ajuda, atendeu um sujeito baixinho com um chapéu redondo na cabeça deste igual aos que se usa nos filmes de cinema, umas roupas pretas, um certo ar de lorde, de moço educado.

  O sujeito mandou que entrássemos, indicou um colchão de palha pra que eu ajeitasse minha companheira, foi aí que eu percebi a queimadura nela, uma larga marca que ia do ombro esquerdo até perto do umbigo passando pelo seio, a blusa ainda cobria as partes dela, apesar de alguns chamuscados, eu também tinha algumas queimaduras mas coisa pouca, umas bobagens nos braços e nas pernas, pedi ao moço um bocado de água pra fazer compressa, ele me atendeu e enquanto eu tentava baixar a febre dela ele começou a falar que isso não terminaria tão logo, que continuariam a nos persegui até que alcançassem nosso fim. Eu fiquei todo espantado e olhei pro sujeito, foi quando ele disse meu nome, e disse que poderia ajeitar tudo bastasse eu dizer que queria, mas que em troca ele viria depois de dez anos em busca de sua paga.

  Eu nem sei direito o que tava acontecendo, só me preocupava com o estado da minha Mirabel, acabei por falar que ele fizesse o que devia logo, nisso o sujeito agradeceu e foi-se embora dizendo que poderíamos ficar o tempo que fosse preciso.

  Amanheceu, a febre nos deu uma trégua e resolvi que por mais que fosse perigoso eu devia levá-la ao doutor.

  Chegando lá, pediram que esperássemos, porque o doutor tava ocupado com um caso de maior urgência.

  Mirabel foi deitada numa cama com rodas e levada pra dentro eu fui me encaminhando pro lugar de espera.

  Chegando lá, uns sujeitos mal encarados se levantaram me olhando feio, eu tinha caído no meio dos matadores, por respeito ao local ficamos todos ali em posição de sentido sem se atacar.

  Depois do que deve ter sido uns quarenta minutos, apareceu o doutor dizendo praqueles moços que infelizmente o paciente não tinha resistido, o coração havia entrado em falência e não sei lá quais termos médicos, depois disse pra mim que Mirabel ficaria bem, mas deixaria uma cicatriz pro resto da sua existência.

  Depois que o doutor saiu o líder dos homens se aproximou e disse que não tinha mais assuntos para comigo, que eu seguisse minha vida em paz, ainda vi o corpo do que um dia foi o meu perseguidor. Nesta hora lembrei do sujeito baixinho que trajava preto, terá tido alguma coisa com isso?

  Quando ela se recuperou resolvemos voltar para a cidade dela, e herdamos a casa mais o comércio do pai dela.

  As pessoas nos olhavam estranhas, tinham receio em falar conosco depois de todo o ocorrido e principalmente estranhavam que Mirabel sempre usasse roupas que lhe cobriam até o pescoço, mesmo em dias em que o sol rachava o chão.

  Entretanto com o tempo as coisas foram se ajeitando, a venda começou a prosperar, a vida foi se amansando. Minha companheira se tornou mais reservada depois da queimadura, mas continuamos a nos amar.

  Começamos a tentar um filho, mas a criança não vinha, tentamos tudo quanto é mandinga, reza e nada. Dona Genoveva, benzedeira da região dizia que algo estava entrevando nosso caminho, nem ligamos, ademais mesmo sem vir criança ficar tentando era passatempo dos bons.

  Deu-se dez anos do acontecido, vieram me bater a porta tarde da noite, estranhei, fui verificar, novamente era o senhor de preto com chapéu de cinema, eu nem mais me alembrava dele. Ele sorriu e disse que era hora de acertar as contas.

  Mandei que entrasse, que se sentasse, e pedi que ele explicasse melhor tudo aquilo. Ele sorriu e disse que eu já sabia era de tudo, e no fundo era mesmo, aquela devia de ser a minha hora. Nisto ele sorriu e eu comecei a estrebuchar.

  Acordei, Mirabel olhou pra mim e disse que tudo ficaria bem, teríamos mais dez anos.

  Nos dois primeiros anos a preocupação se mantinha como praga em nossas vidas. Resolvemos ir até o santuário de nossa senhora em busca de paz, chegando lá ouvimos a missa e fomos ter com o padre.

  Ele disse que este assunto era bobagem, pois somos filhos de Deus e ele olha por nós, mas recomendou que nos casássemos de acordo com a igreja.

  Voltamos pra casa e em pouco tempo nos casamos, a vida começou a ficar mais calma, voltamos a ser felizes e a preocupação deixou de existir.

  Ao fim de oito anos ainda não tínhamos um filho e isso começou a nos apertar o peito, deixar este mundo sem nenhuma prova de nosso amor, de nossa história, faltava uma criança pra se completar a família.

  Novas vigílias, novas mandingas, mas somente a agora moribunda Dona Genoveva nos deu a solução, deveríamos consagrar a criança a Maria.

  Assim fizemos novenas a nossa senhora, e prometemos que a criança seria filho de Maria.

  Dentro de algum tempo Mirabel estava embuchada e com seis messes de gravidez o maldito voltou.

  Batidas na porta no meio da noite, não atendemos, nos ajoelhamos e começamos a orar por nossa senhora, a porta se arrebentou e o baixinho de preto entrou com seu sorriso, dizendo que aquilo era uma falta de educação para com ele, que afinal éramos nós que estávamos em dívida.

  Avancei em cima do sujeito meus joelhos perderam a firmeza e fui de cara ao chão. Só pude vê-lo se aproximar de Mirabel enquanto minhas pernas não obedeciam, foi aí que ele deu um grito, e disse que aquilo não podia ser que havíamos traído o acordo pois que uma criança consagrada não podia ser tocada.

  Olhou bem pra mim com olhos chamuscantes e gritou que voltaria dentro de cinco anos, mas que não mais nos buscaria que em cinco anos viria pegar a criança.

  Ficamos sem saber como agir.

  Tivemos um lindo menino, que encheu nossa vida de alegria e paz, mas sempre sabíamos da hora marcada.

  Agora já estou velho e começo a ouvir as batidas na porta, o menino está com a mãe. É a hora do acerto!

  O maldito está na nossa frente, só posso olhá-lo não tenho como reagir ao seu sorriso sinistro.

  Digo que ele pode me levar, que eu vou com ele se deixar minha família em paz, ele diz que não será necessário que só vem buscar a criança, Mirabel também se pronuncia dizendo pra levar nós dois e deixar o menino, eu a olho com uma angústia imensa, tem de ser assim.

  Ele novamente diz que só veio buscar o menino, imploramos que não, ele sorri e diz que quem deve decidir se vai ou não é a criança, meu filho uma criança de cinco anos sorri e o olha admirado, deve ter gostado do chapéu. Ele o chama eu grito pro menino não ir, sinto minha voz sumir no ar, a mulher só chora o menino se vai com ele.

  Agora não teremos mais descanso, sou velho, Mirabel também, mas devemos seguir nosso destino e caçar o menino, se um maldito que anda na terra veio de nosso ventre deve ser eliminado por nós, é nossa sina, nossa maldição. Devemos isso a santa.

  Deixo aqui a minha história para que sirva de aviso aos que vierem: “Cuidado com os malditos!”

  Este conto foi feito por Paulo Carvalho.

A Insustentável leveza da merda

07/02/2010

  Qual a natureza da merda? É a grande marca que nivela o homem através da inevitável posição de calças arriadas? Muitos dizem que você é o que você come, eu prefiro pensar que a essência do ser está ligada a outra extremidade. Me apoio naquela velha piada que pergunta por que a minhoca caga terra? Afinal o maior mérito humano é a capacidade de virar adubo.

  Talvez esta posição pareça radical, mas perceba que ela é a conclusão lógica, eu diria matemática, de uma equação mesquinha. Não me refiro a mancha de bosta, que é a insignificância humana diante da história do universo, me refiro a real importância do individuo na própria sociedade da qual faz parte.

  Eu sou um miserável e o que de pior pode acontecer a um miserável é adquirir consciência. Felizes são os porcos que se aninham contentes em meio às próprias fezes, o Ser Humano dotado de razão e ciência sabe que os excrementos são só um amontoado de sujeira e vermes, mas se este Ser Humano adquire consciência ele percebe a enorme latrina em que está imerso. O asco é necessário, como é necessário o ato de produzir merda.

  Pois bem eu miserável consciente, mascaro a minha miséria em aventura beatnick, enquanto os mais miseráveis que eu me importunam com seus pedidos de esmola. O ônibus, transporte inevitável aos miseráveis, é um grande depósito de gado, que por ter um semelhante bovino guiando o destino, arremessa sua carga por entre abismos profundos, enquanto a mesma se debate como gelo num triturador. Paciência, é normal perder algumas cabeças quando se transporta carga viva.

  E neste espaço se amontoando como resíduos num aterro o miserável conduz a bosta que chama de vida.

  Mas não se enganem o mundo é uma lata cheia de merda, mas que exala poesia.

  Esta crônica foi feita por Paulo Carvalho.

Família vende tudo

11/01/2010

I

  Na pequena casa de três cômodos, situado na zona leste de uma metrópole qualquer estava estampada a frase que anunciava o futuro da família. Sobre uma placa fina de madeira aglomerada, a podia-se ler em caligrafia pobre os dizeres “Família vende tudo”.

  Pintada pelo senhor José Antero, o chefe da família que ouvira boas novas a respeito da região mais ao sul do país onde um trabalhador de boa fé com certeza arrumaria bom trabalho.

  A despeito dos protestos de Dona Salustiana, José determinara novo rumo para os seus, notícias chegavam pelo boteco do Tião, parentes dos vizinhos que conseguiam boa vida, o sobrinho do Alcides que até carro tinha comprado e o neto da Catarina que estava pra casar, financiamento de casa própria e tudo.

  Além do senhor José Antero e da Dona Salustiana, a família ainda era constituída pelo pequeno Euclides e a jovem Arethuza. Os nomes foram escolhidos pela mãe que se inspirara nos folhetins que diariamente assistia pela TV.

  Com exceção do senhor Antero ninguém mais achara aquilo uma boa coisa, mas o respeito os tornava calados. Somente Dona Salustiana tentou discutir o assunto, mas a certeza de José era tal que o tornava violento. A esposa não mais o questionou.

  Acontece que a fortaleza daquele pai não era tão constante como a família imaginava, em seu íntimo José Antero vacilava, lembrou-se de seu pai que já havia feito peregrinação até a região do país onde crescera, lembrou-se de sua infância sofrida e do pouco conquistado, a incerteza tomava formas variadas. Ao mesmo tempo as certezas eram ainda maiores materializadas nos calos dos pés, nas roupas surradas, na falta de estudo, a esperança por mais incerta ainda era mais doce que o fel da atualidade.

  Os vizinhos andavam pelo pequeno cômodo, antes quarto, agora loja onde estavam expostos a reunião de cacarecos que formava o patrimônio da família.

  Sem dúvida os dois artigos mais valiosos eram a televisão de vinte polegadas e o toca-discos herdado por José. O patriarca esperava conseguir algo em torno de cento e cinqüenta reais pelo conjunto. A televisão foi bem vendida, sendo disputada pelos antigos amigos a família conseguiu cento e vinte reais, o toca-discos porém continuava sem despertar interesses, o que o Senhor Antero achava um absurdo, para ele, aquele sim era um artigo de luxo. Lembrou-se de quando jovem o vira pela primeira vez, seu pai por meio do crediário, inovação de uma loja que permitia aos trabalhadores mais humildes a extravagância de comprar tal aparelho. Sem dúvida muito melhor que os atuais aparelhos sonoros, feito todo de boa madeira, com botões prateados e fino acabamento, um aparelho com história.

  O único a se interessar pelo toca-discos foi um estranho, ele passava pela rua e curioso entrou para dar uma olhada nas ofertas.

  Ao perguntar pelo preço José lhe responde que um aparelho daquele valia no mínimo uns setenta reais, isso porque ele foi com a cara do moço que parecia ter bom gosto e ia cuidar bem do bichinho. O estranho pôs-se a rir, disse que pagava vinte, pagando bem. José Antero olho para o homem, para o toca-discos e disse:

  – Seu moço vai me desculpar, mas o dispositivo aqui é coisa fina, acabamento de primeira, o som é muito bom e isso aqui é madeira de verdade.

  – Olha se ele é tão fino assim porque ninguém mais parece se interessar? Isso aí é uma velharia, ninguém mais escuta disco, eu só me interessei porque gosto de coisa velha, eu ofereço vinte, agora se o senhor prefere ficar com esse peso morto não é problema meu – Secundou o homem.

  José calou-se pensou um pouco, pensou na longa viagem que faria, não teria como levar o aparelho, olhou mais uma vez para o toca-discos, engoliu seco e pegou os vinte reais do homem. Antes do rapaz sair José ainda disse:

  – Esse toca-discos tem história.

II

  No dia da venda Dona Salustiana teve muito trabalho, madrugou, faxinou o banheiro e a cozinha, passou um café e foi acordar a família, enquanto eles tomavam banho começou a desmontar o quarto, logo pediu ajuda aos filhos a menina desatarraxava os parafusos da cama, as roupas que iriam na viagem já estavam separadas nas malas, as restantes eram colocadas sobre um cesto de jornal que imitava vime, expostas para venda.

  Todos trabalhavam em silêncio com exceção do José Antero que assoviava um bolero enquanto pintava a placa na calçada em frente à casa.

  Com a responsabilidade de manter a família unida Dona Salustiana mascarava suas angústias, não entendia como podia ser bom abandonar o local onde nasceu e cresceu, onde conheceu o marido e teve os filhos, onde tinham amigos e família. Como um destino incerto e aventureiro poderia ser melhor que o amparo e a ajuda daqueles que conheceu por toda a vida?

  Na tentativa de afastar os maus pensamentos a mãe de dois filhos era metódica, varria o chão do quarto com uma obstinação que não permitiria a nenhum grão de poeira se esconder das fibras de piaçava.

  Sentia algo estranho na filha, ela estava mais distante do que costuma ser, na verdade já a algumas semanas a filha demonstrava um comportamento diferente, mais reservada, as vezes parecia triste, outras demonstrava um espírito cativante, uma inconstância que incomodava a mãe, mas neste dia em especial, ela estava ainda mais estranha.

  As angústias da mãe acabavam se misturando com a da filha e Dona Salustiana concluiu que tudo devia ser por conta da viagem.

  O menino por sua vez estava com os olhos assustado, parecia não entender nada, a mãe caridosa ajeitou as roupas do menino e lhe deu um beijo na testa, isso parece ter acalmado um pouco o pequeno que saiu até a porta acompanhado de seu inseparável cavalinho de pelúcia e ficou observando as pessoas que começavam a invadir as ruas.

  Quando os vizinhos começaram a entrar na casa da família Dona Salustiana os recebia com um sorriso e lhes oferecia café, passaria a tarde toda passando café e lavando copos. Esperava com certa ansiedade pela visita de Madalena, amiga de infância com quem ela sempre se confidenciava, e discutia sobre os rumos daqueles folhetins que inspirava nomes de filhos, na véspera ela tinha ido até a amiga e se permitiu um momento de fraqueza, sobre os braços da amiga ela chorou com medo da viagem e da solidão de terras desconhecidas.

  Até a hora em que José vendera o toca discos, Madalena ainda não aparecera, veio só no fim da tarde quando deram falta do menino, sob o pretexto de procurá-lo ela saiu com a amiga, juntas andaram por locais familiares à infância das duas, Salustiana se preocupava com o filho, mas na busca pelo menino ela se despedia de sua terra, vendo-se refletida nas casas do bairro, no bazar da esquina até no boteco do Tião.

  – Madalena reza por nós? – A mãe perguntou de repente.

  – Rezo. – respondeu-lhe a amiga.

III

 Euclides não entendia muito bem tudo que acontecia, o pai chegara um dia animado falando em se mudar, vida nova, e outras coisas que lhe deixavam confuso.

  Sentiu que a família toda de alguma forma estava estranha. O dia e que tivera que esperar fora de casa junto com a irmã enquanto os pais conversavam lhe marcou de um jeito que ele não saberia descrever, a irmã parecia impaciente e não lhe dava atenção e a mãe não parecia à mesma desde aquele dia.

  Na véspera ao dia das vendas ele chegara a uma conclusão, a família havia sido trocada por robôs alienígenas.

  Durante todo o dia em que chegou aquela idéia ele ficou observando a família a procura de provas.

  Primeiro foi a mãe que saiu durante a tarde enquanto o pai estava fora, isso não era muito comum de acontecer, depois mais a noite a irmã é quem sumira, com certeza eles já sabiam da desconfiança do menino e iam fazer relatórios aos seus superiores de outro planeta.

  Temendo ser substituído por um robô o menino demorou a dormir, encolheu-se todo na coberta e se manteve em vigília até que sem perceber acabou adormecendo.

  Acordou na manhã seguinte assustado a mãe acordava toda a família e uma revolução se armava na casa, com certeza alguma coisa grande aconteceria aquele dia, quando a irmã começou a desmontar a cama ele tinha certeza que a sua casa se transformava em base para uma grande invasão alienígena.

  Neste momento ele olhava tudo acuado, sem saber o que fazer, abraçou seu cavalinho e torcia para que seu amigo eqüino encontrasse uma forma de salvá-los. Quando algo lhe fez mudar de idéia, sua mãe se aproximara dele e lhe deu um beijo na testa como só a sua verdadeira mãe saberia dar.

  Este milagre foi um verdadeiro alívio para o pequeno que resolveu sair e olhar o movimento na rua.

  Aos poucos as pessoas iam entrando em sua casa e levando embora as coisas da família, abraçado ao seu cavalinho ele não entendia nada, porque estavam levando suas coisas? Ele viu passarem por ele com panelas, levarem a televisão e até o velho troço grande e engraçado que só o pai podia mexer.

  Andando entre as pessoas ele se sentia invadido, por vezes alguém vinha e lhe mexia os cabelos, lhe davam beijinhos dizendo que iriam sentir a falta dele.

  Em meio a tudo isso ele começou a ficar assustado, o que estaria acontecendo, será que ele se enganara em respeito ao beijo da mãe? Os robôs alienígenas seriam tão avançados que até o beijo materno era copiado?

  Com tantos medos e temendo também por seu amigo de quatros patas, o menino saiu da casa disfarçadamente e fugiu, correu o mais rápido que pode e se escondeu perto da escola talvez a professora o ajudasse, a menos que ela também fosse um robô.

IV

  Arethusa, não gostou nada quando o pai chegou em casa animado com a idéia de se mudar. Torceu para que fosse só uma idéia perdida que não daria em nada, fora isso confiava na mãe para dar juízo ao pai.

  Entre todas as coisas uma em especial fazia com que o desejo de seu pai fosse para ela uma opção terrível, Jorginho, o namorado da jovem a quem a poucos dias ela tinha entregado a virgindade.

  Jorginho era um garoto do bairro que estudava na escola de Arethuza, ele tinha fama de namorador por isso a garota fingia não dar bola ao rapaz, entretanto com o tempo eles acabaram se apaixonando e Arethuza tinha certeza que Jorginho só tinha olhos pra ela.

  O momento em que pela primeira vez a jovem sentiu-se mulher foi para ela mágico, os pais do garoto estariam fora durante todo aquele dia, então eles fugiram da escola no intervalo e se dirigiram a casa do garoto.

  Arethuza sabia que tinha encontrado seu príncipe e sonhava com o dia em que casariam e teriam filhos.

  Por isso a empolgação do Pai em se mudar para o sul a assustara, mais ainda quando menos de um mês depois ele marcara a viagem e um bazar para a venda das coisas da família.

  Uma outra coisa que a deixava perturbada era a menstruação atrasada, já vira meninas de sua classe engravidar, outras até abandonaram a escola, por isso ela tinha um pouco de medo.

  Foi uma destas amigas que já era mãe que lhe arrumou um teste de farmácia, seu coração disparara em ritmo alucinado e quando o teste anunciou seu positivo ela já sabia o que fazer.

  Jorginho parecia amedrontado, mas concordou com o plano de fugirem juntos no dia do bazar quando os pais estivessem ocupados em calcular o saldo do bazar e traçar os planos futuros.

  No dia combinado Arethuza sentia pena pela mãe, sentiria saudades dela, do pai e até do pivete do irmãozinho, com certa dor no peito ela se calou e não falou o dia inteiro.

  Quando sentiram a falta de Euclides, e a mãe saiu a procurá-lo ela percebeu ser a chance de executar seu plano, escondeu na mala de viagem a carta que escrevera pra mãe, e foi ao encontro do amado.

  Ao bater na casa de Jorginho quem veio lhe atender foi a mãe do rapaz, disse que o filho havia viajado cedo para a casa do primo e só voltaria dentro de dois dias.

  Arethuza não se conteve e começou a chorar lá mesmo, sem se preocupar com a opinião da ex-sogra que aflita lhe oferecia um copo d’agua. A moça desamparada agradeceu e começou a andar sem rumo.

  Quando a noite já se fazia alta, e as lágrimas já haviam secado, tudo que Arethuza sentia era uma ásperez na garganta, uma desilusão completa como se a ela não houvesse mais futuro.

  Neste momento ela ouve um choro baixinho, ao se aproximar vê o pequeno Euclides.

  – Todos estão procurando por você – diz a garota.

  O menino não diz nada e só abraça a irmã, esta a princípio atônita retribui o abraço, lhe acaricia os cabelos e beija-lhe a testa com muita ternura e diz:

  – Vamos pra casa, amanhã nos iremos viajar.

  O garoto pega-lhe a mão e juntos caminham para casa.

  Este conto foi feito por Paulo Carvalho.

O Anti-Efêmero

20/12/2009

  Ariovaldo acordou com uma idéia fixa em sua mente. Nunca mais iria apagar nada que porventura escrevesse, nem uma vírgula, nem uma correção, nada. Nunca mais faria uso de borrachas ou quaisquer outros artifícios que pudessem esconder um erro. A memória precisa ser conservada, Deus pode estar numa vírgula mal colocada. Então deste dia em diante, Ariovaldo nunca mais ousou atentar contra a palavra registrada.

  Esta decisão a princípio simples mostrou-se caprichosa, os pequenos erros em bilhetes podiam ser ignorados, ou um novo bilhete podia ser feito, mas com a falta de tempo e a fadiga, reescrever, até uma pequena mensagem, era um ato desagradável, o que incomodava deveras era a letra trocada ao fim da lauda.

  Pela escrita eletrônica os problemas se mantinham era comum um simples memorando ter entre doze a trinta e cinco versões armazenadas na memória.

  Resolveu-se por ignorar estes pequenos deslizes, o leitor, pelo uso correto da lógica, que se ocupasse em descobrir as falhas do autor.

  Tal medida mostrou-se infrutífera, pois dela derivaram-se muitos desencontros, principalmente entre sua esposa e sua amante, já que a oficial chamava-se Cláudia e a outra tinha por alcunha o nome Gláucia, o estagiário nunca sabia a quem mandar um recado quando anotado ao pedido estava escrito: “Mandar para Gláudia”.

  Por fim Ariovaldo determinou que se não podia-se apagar nada poder-se-ia acrescentar algo, logo seus textos eram recheados de: “(erie) – errei no conteúdo entre parênteses -” algumas vezes haviam parênteses sobre parênteses mas isso acontecia com certa raridade.

  Quando esta solução já estava estabelecida e tudo corria com uma certa normalidade Ariovaldo percebeu uma mancha em sua blusa, a princípio ficou irritado com a lavanderia, perderia horas importantes do seu dia indo em casa trocar de roupa, entretanto, a mancha acabou por se mostrar como uma nova forma de escrita, e portanto não poderia ser apagada, nenhuma roupa deveria ser lavada pois a memória das coisas está contida na sujeira, a casa não deveria ser limpa e nem banho deveria ser tomado. Ter todos os dentes brancos é um atentado contra as marcas do tempo e há de se respeitar o tempo.

  Com estas atitudes Ariovaldo foi se isolando cada vez mais, à medida que as marcas eram mais fortes, menores eram o número de pessoas em seu entorno a amante nunca mais dera notícia e sua mulher num ultimato rejeitado acabou-se também por despedir-se. Tanto melhor, perdem-se as pessoas, mas ganha-se em experiência.

  Algum tempo de ermitagem depois, Ariovaldo ficou enfermo, foi levado ao doutor, deram-lhe um banho à sua revelia, mas o paciente negou-se a toma medicação. Dizia ele que as soluções químicas eram como apagar a história escrita pelas bactérias, nenhum apelo o fez repensar a sua posição, por fim acabou indo ao óbito. Em sua lápide ficou estampado a epígrafe: “Todo (respeisto) – errei no conteúdo entre parênteses – respeito à memória”.

  Este conto foi feito por Paulo Carvalho.

Quando criança eu queria ser herói

14/12/2009

  Quando criança eu queria ser herói – Estava olhando pra frase que me parecia tão promissora, um belo conto sairia dali. Falaria, quem sabe, dos pequenos prazeres de infância, do tempo em que corria com os pés descalços e como isso moldou o homem que sou, mas a verdade é que não conseguia ir além da bela frase.

  Resolvi dar um tempo, deixar a idéia na gaveta da memória, com algum tempo ela se desenvolveria sozinha e voltaria pra me contar suas aventuras.

  Durante semanas não me preocupei com isso, o pequeno herói estaria fazendo das suas e eu ia seguindo minha vida, com olhos atentos, procurando os segredos da história.

  Acontece, porém, que o inconsciente se fazia preguiçoso, ou era birra contra meus sonhos de super-humano, nada além da frase inicial, nenhum material com que trabalhar, mas duelando com a teimosia da mente sub-consciente, estava o também teimoso apego pela idéia, e minha cabeça se tornou como o topo da montanha que só responde em eco: “Ser herói, herói, ói”.

  Eu estava assim, sem entender o porque a frase me era tão querida e porque diabos nada surgia dela, resolvi viajar, voltar à cidade onde crescera, lá se esconderia o meu pequenino herói.

  Já fazia alguns anos que não voltava à cidade, nenhum ponto turístico, nenhuma graça, a cidade era só mais uma cidadezinha de interior, mas assim mesmo tinha sido meu refúgio o jardim onde se escondiam minhas raízes, talvez por isso sentia uma pressão no peito durante a viagem.

  Desci na rodoviária, fui direto ao hotel, tomei um banho, e fui à janela, me sentia estranhamente preenchido, meio feliz, meio com medo, meio amargurado. Devia ser por volta das dezesseis horas, o estômago começou a reclamar, procurei uma padaria, a velha padaria do centro, lugar proibido na infância, já que lá sempre estavam os bêbados acompanhados de suas dores, estava mudado, algumas reformas, nada estrutural, mas não mais o mesmo lugar, os bêbados já não tinham a mesma poesia, me senti um intruso, um forasteiro.

  Nada de grande aconteceu na primeira noite, jantei, voltei ao hotel, dormi. Dia seguinte acordo cedo, oito horas, sigo pra escola, as crianças brincavam como sempre, procuro uma antiga professora, já velhinha, mas ainda com o mesmo ar de mulher independente, a mesma emanação de sábia mestra, conto que fui seu antigo aluno que voltei à cidade pra relembrar, ela sorri, “ainda procurando seu tesouro?”, se despede têm alunos a cuidar, eu a vejo ir com seus passos tímidos, aquela mulher marcou-me a vida.

  Visito outros lugares, espaços de antigas brincadeiras, o passado de alguma forma me iluminava o agora, mas nada do meu heroizinho. Fico sabendo do paradeiro de Ferdinando, meu antigo melhor amigo. Vou visitá-lo, ele me abraça como se tivesse me visto ontem, me apresenta seus filhos a esposa, conversamos sobre a vida, amenidades, me sinto feliz de uma forma que já tinha esquecido, quando estou saindo ele me diz: “Todos temos muito orgulho de você. Já foi até sua mãe? Ela gostaria de sua presença”.

  Volto para o hotel e me lembro por que nunca voltei à cidade, minha mãe, tinha que vê-la antes de partir.

  Acordo no último dia de viagem, partiria na hora do almoço, antes disso vou visitar minha mãe. Lembro que na infância o cemitério municipal me dava medo, sempre tinha alguma boa história de fantasma, de espírito maligno, de almas atormentadas, o cemitério era lugar de fantasias, agora é só saudade, chego ao túmulo da família, me sento, e por algum tempo fico só a fitar a lápide, a foto já gasta, ainda demonstra a graça daquela que fora minha mãe, ela morreu pouco antes de eu deixar a cidade. Estava indo estudar, me formei, consegui um emprego, e nunca tinha voltado a visitá-la. Meu pai sempre me convidava nos dias de finados, mas eu sempre arranjava uma desculpa, agora sozinho eu comecei a chorar, mas não foi triste, pelo contrário foi um choro tranqüilo, de saudade, mas feliz por ter tido o privilegio de crescer com seus puxões de orelhas.

  Pego o ônibus, volto pra casa e descubro que finalmente encontrei aquele tesouro ao qual a professora se referiu, e o meu pequeno herói? Ele esta sempre comigo, pois foi ele quem me salvou.

Este conto foi feito por Paulo Carvalho.

O Enamorado

29/11/2009

  O Coroné Leotério era homem bravo e importante, destes que o povo se descobre ao menor sinal de presença, e que os mais humildes raramente ousam dirigir palavra.

  Pois que os boatos começaram a se espalhar, quem seria a bela jovem que curioso viu passar pela janela da sala? Se cogitou que fosse uma amante, mas como o Coroné tinha moral ilibada achou-se esta idéia matutagem besta, por consenso geral ficou decretado que ela era uma filha dele à que o povo num tinha dado conhecimento, alguns pensaram abordar pessoa próxima, mas esta não sabia de resposta, posto que o Coroné fazia a moça se manter nos cômodos mais reservados quando de haver visita à casa.

  Acontece que tanta proteção e mistério só fez mais brotar a imaginação das gentes, alguns que anunciavam ter tido a sorte de avistá-la a descreviam como a mais bela moça a ter respirado o ar da vida, lenda corria que até um anjo do senhor ficara apaixonado pela moça e que voou assustado quando alguém o avistou, com tanta verdade e ficção junta como a palha e o fumo, acabou-se por muitos terem se apaixonado, vigílias se faziam a espera de um instante de beleza, mas estes eram concorridos e disfarçados pelo medo do escândalo e da carabina do Coroné.

  O único homem solteiro que se ria de todos era o professor Cadinho homem de estudo que sabia segredos dos bichos e do solo, e ainda se esforçava pra mostra o bê-á-bá pros peão das nossas bandas. Na verdade o professor era viúvo e já não tinha mais tanto ânimo pras aventuras que apertam o peito – “Beleza há de passar, o importante é que as idéias se encontrem” anunciava o sábio homem, que tal como o batista pregava no deserto, já que os ânimos de todos só sonhavam com a bela bem-querida.

  Mas mesmo com tantos suspiros, com tantas vigílias, e tanto sonhares, os solteiros iam se findando, já que a idade avançava e o medo de enfrentar o Coroné não refreava.

  Foi então que quando todos já tinham a bela como um sonho de nostalgia, anunciou o Zé Firmino – “Eu que sobrei solteiro, não tenho do que me valer. Vou enfrenta a fera e trazer pra mim a bela”, O povo não acreditou muito na súbita valentia do Firmino, tão feio e sem brilho que, tirando os amigos mais chegados, poucos se lembravam dele ao longo dos dias, alguns chegaram a rir da inocência apaixonada, mas eis que Firmino foi e tempo depois volta no boteco do Nego Jorge, Alegre feito porco quando chega a lavagem, Dizia que voltara vitorioso porque o Coroné permitira a corte, mas alertava esclarecimento tardio: a filha na verdade era sobrinha do Poderoso.

  Durante as semanas seguintes o povo não se continha, já que com a corte a moça saía de casa, acompanhada do agora enamorado Zé, pra ir às missas de domingo. E os outros homens já casados sentiam inveja do Firmino e raiva de si por não ter tido a audácia do pequeno traste. E olha que todas as fábulas de bonitesa eram pouco, a moça só num era mais linda por falta de capacidade admirativa, muitos casados seguravam o suspiro à força imensa quando do lado da esposa, a cidade nunca tinha sido tão devotada à cristo em anos.

  Então chegou o dia em que Zé Firmino anunciou – “é hoje que eu a enlaço, vô pedi a mão dela pro Coroné”. Tomou mais uma dose da marvada, acertou o devido ao Nego Jorge e foi-se confiante pela rua.

  Na noite do mesmo dia não se reconhecia o Zé, o homem mirrado, que até tinha ganhado um certo ar nobre, se desfaleceu no pior dos miseráveis, bêbado gritava para que todos ouvissem – “Sou um desgraçado, sou o maior desgraçado deste mundo inteirinho”, questionado o porque Zé Firmino deu com a língua, disse que a moça não era mais donzela, que assim que fez o pedido ao Coroné Leotério, esse mandou ele sentar e avisou que não podia esconder dele a verdade, o que foi um rasgo no coração do Zé que se partiu em pedaços de vidro quebrado.

  Então no meio de toda lamentação o velho Professor Cadinho, que também gostava de bebericá das suas, tem um rompante e grita pro Zé se calar que ele num passava de capiau atrasado, e que não ser donzela era coisa pouca pra tamanho despropósito, o Firmino, que por àquelas horas até pagava pra entra em briga, respondeu que se o professor gostava de marafona que fosse ele se casar com a perdida. Cadinho não agüentou tamanha cabeça-duriçe e deu um bofetão pro bêbado dormi de vez, se ajeito em seus panos cor castanho e declarou – “Pois que se é assim que este povo pensa, eu vou lhes dar uma lição”, e sumiu-se na noite.

  Tempos depois soube-se do casamento, dos filhos e que por muito tempo ninguém discordava de que não havia casal mais feliz e afortunado. Quanto ao Zé Firmino, acabou por morrer sem conhecer mulher, alguns dizem que no fim da vida ele só suspirava fundo e repetia pra si – “Sou um desgraçado, sou o maior desgraçado desse mundo inteirinho”.

  Este conto foi feito por Paulo Carvalho.

A Carcaça

23/11/2009

  Não se sabe de onde ele veio, qual motivo, qual destino deu aquele fim à criatura, mas ela estava lá, estirada na minha frente, os olhos esbugalhados, o bucho magro desenhando costelas no couro, já no primeiro encontro o cheiro, aquele cheiro forte que revirava o estômago e nos faz tampar a boca com trapo de pano.

  No começo eu tive curiosidade, terá sido doença? Pancada? Velhice não devia ser. Terá tido um dono? Alguém que se importasse? Ou era só mais um cão vadio que vive de revirar o lixo dos outros? Daqueles que se vemos por perto logo ameaçamos com pedaço de pau ou pedra.

  Eu não tinha idéia, mas estava lá, a carcaça do bicho, devia fazer pouco tempo que tava lá, talvez um dia, quem sabe horas, só sei que no dia anterior não tava, senão eu teria percebido, mas será que alguém recolhe isso? Dá um fim menos miserável pro coitado? Não sei, segui meu caminho pulando o bicho e seguindo em frente.

  Dia seguinte novo encontro, a coisa ainda tava lá, o cheiro tinha aumentado e algumas moscas apareciam em volta, já não tinha mais nenhuma curiosidade só o nojo mesmo, a vontade de xingar alguém por não se livrar daquilo logo, aquela porcaria que atravancava o caminho.

  A coisa continuou assim durante toda a semana, o bicho apodrecendo, depois de alguns dias já se antevia a tortura pelo olfato, me acostumei a levar um pano em que borrifava água de colônia toda a manhã, a imagem da criatura logo se anunciava como uma ofensa à dignidade do sujeito que trabalha, o mesmo caminho todo o dia, não tinha desvio possível, o negócio era encarar a putrefação com coragem.

  Na segunda semana não podia tomar café, se estivesse com algo no estômago o encontro era mais custoso, agora já se via buracos na pele, a brancura dos ossos se anunciava e mostrava que a maldita da morte não para de trabalhar, pular o bicho era cada vez mais difícil, porque ele ficava no meio do caminho seco, do lado o mato tava sempre úmido e sujava de barro o sapato da gente, os mosquitos eram tantos que alem da boca tínhamos que fechar os olhos.

  Na terceira semana a vida era a carcaça, saber que tinha que encarar aquilo, diariamente, não deixava os pensamentos no lugar, logo fui me tornando um bruto, sem paciência, tinha de acabar com aquilo de uma vez, ou sumia com aquela coisa podre, ou me apodrecia a vida.

  No fim de semana consegui um saco preto e fui até o cachorro, o cheiro da morte era insuportável, peguei o saco, enfiei a mão por um lado e diante do meu próprio asco peguei a cabeça do bicho, a coisa abriu no meio, e se esparramou uma mistura de vermes e vísceras, não contive a ânsia e acabei misturando vômito àquela nojeira, depois agarrei a perna de trás e coloquei dentro do saco, a parte grossa e dura da carcaça tava no saco, no chão ficou um resto de bicho meio líquido meio pastoso, vermelho e branco por causa dos vermes e do vômito. Fechei o saco e andei uns três quilômetros com o embrulho indigesto e fedorento, soltei ele numa rua onde já estavam alguns sacos empilhados a espera de recolhimento.

  Em casa joguei a roupa fora e fui me lavar, a imagem da carcaça aberta não me saia da cabeça, o cheiro não me saia do corpo, me esfreguei até ficar vermelho, abri uma ferida no braço, dela saiu sangue, por um minuto me vi naquela carcaça, eu estaria podre?

  Nos dias seguintes o resto pastoso do bicho foi sumindo, logo virou uma mancha, logo não era nada, mas todo dia quando passava pelo lugar ainda sentia o cheiro, ainda tinha que fazer o mesmo caminho, todo dia, a vida toda.

  Este conto foi feito por Paulo Carvalho.